17 Maio 2022, Terça-feira
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98 anos de Sebastião da Gama. Que hei-de fazer com este homem?

Sebastião,

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Meu poeta, meu irmão,

Será abuso tratar-te assim?

Perdoar-me-ás o atrevimento assim como a minha ausência desta terra que amamos neste dia festivo que é o teu (10 de Abril). Teu e (pelo teu esforço) da nossa Serra – aquela que amaste e em que colheste poesia vezes sem conta, cognominando-te o Povo, eterno sábio, “Poeta da Arrábida”, num gesto natural de quem reconhece que tu e a Arrábida são faces da mesma moeda.

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Perdoar-me-ás, meu irmão, bem o sei, porque o teu coração, grande e generoso, tudo perdoa – ou não tivesses tu as mãos purificadas.

Daí, onde agora te encontras, contemplando a face do nosso Deus, sinto provir um beijo (porque o Poeta tudo beija); sinto provir, como tu mesmo escreveste, uma “carícia igual a um perfume ou um perdão”.

Do mesmo modo, a tua Isa festeja, uma vez mais, os anos do seu Bastião feliz e finalmente a teu lado, após 62 anos de comemorações na mais profunda solidão e saudade. Ah! que grande alegria é poder olhar nos olhos quem nos ama!

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Diante do papel branco, eu, pobre criatura, faço minhas as palavras dela sobre ti: sei mais pensar em ti, que falar de ti. E exclamo – como outrora o Director da Escola de Estremoz depois de te ralhar – “Que hei-de fazer com este Homem?”.

Tudo isto são sentimentos, bem sei. Mas não foi o teu amigo David, nosso irmão, que disse que a fortuna póstuma da tua poesia se deve mais a razões afectivas que a motivos estéticos?

E não foste tu que disseste que a Poesia é indefinível e inapreensível, “que é feita da mesma incógnita matéria que os deuses. Lê-se um poema ou colhe-se um lírio ou sorri-nos uma criança – e nós sentimos Poesia”?

Que hei-de fazer contigo, quando tu próprio disseste que os Poetas ganham tempo a namorar uma ovelha e se comovem com coisas de nada? Com um pássaro que canta, com uma mulher bonita, com um pai que olhou desvanecido para o filho pequeno? Que o Poeta acha que tudo é importante; que pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim; e que reparou que os homens estavam tristes…

Foste tu que disseste ser já tempo de “ficar dito de uma vez para sempre que só se é Poeta na medida em que se é homem” e que qualquer acção do homem-Poeta “é a massa da sua poesia como o seu voo mais arrebatado”; que ele “sente, como suas, as alheias misérias” não precisando de se desdobrar “num homem que as sentisse e num Poeta que exprimisse esse sentimento”.

E que é por isso “que é preciso ser Poeta principalmente por dentro”.

Que hei-de fazer contigo?

Diz-me, Sebastião, que hei-de fazer contigo? Como direi ao mundo que continuas vivo? Que segues por aqui, entre prosa, versos e memórias?

Permite-me que te fale como falavas ao nosso Frei Agostinho; que te faça perguntas, que te questione, que te ralhe, que me exaspere, ou simplesmente, que contigo desabafe.

Talvez os nossos leitores não nos compreendem? Talvez…

Será que entendem que te trato por irmão, porque tu, como confessaste a Frei Agostinho, trataste por irmão todas as coisas?

Só tu sabes, meu irmão, o quanto me inquietas; o quanto me incomodas. E como te estou grato por isso.

Bem sabes que eu, inútil criatura, decidi seguir-te, meu Poeta. Decidi pisar os teus passos (os que o mar não apagou), seguindo o desejo simples que me está inscrito no coração: ler a tua obra e, como tão bem expressaste em 1947 a propósito da poesia social do Século XIX: “observá-la de perto, reparar no que fez e como fez. E ver se pode salvar-se para a Poesia [ou seja, para o Homem] (…) tanto pó tão merecido que lhe pôs o tempo em cima”.

Eu acredito que sim.

Comentários

Lourenço Morais
Presidente da Associação Cultural Sebastião da Gama
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