19 Maio 2022, Quinta-feira
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A saúde física permite-nos viver, mas só a saúde mental nos permite aproveitar a vida

Crianças, adolescentes, adultos e idosos têm sentido agravar-se as dificuldades de gerir emoções e pensamentos, lidar com a dor e o medo e sobretudo com o desconhecido, sem grande possibilidade de escape com prazeres conhecidos e rotinas saudáveis.

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Foi assim, perante tamanha mudança nas nossas vidas, lançada a reforma da saúde mental, que está a ser preparada com os 85 milhões de euros previstos, entre outras medidas, com programas de intervenção não farmacológica nos centros de saúde e a criação de 40 equipas comunitárias de saúde mental. Alguma esperança, portanto, com alguns concursos em curso, mas a habitual demora e a pesada burocracia do serviço público, mantêm insuficiente a resposta adequada às necessidades e pedidos dos utentes.

Os técnicos, que já trabalham na saúde, sejam públicos ou privados, têm-se desdobrado para chegar a todos os que os procuram.

No entanto, e apesar desta intenção que todos desejamos ver realizada, a de ampliar e melhorar respostas na saúde mental, existe ainda uma outra barreira à superação do sofrimento emocional e psicológico. Talvez até uma barreira maior, criada pelo preconceito, pelo estigma e pelo desconhecimento. Esta barreira é tantas vezes, mais do que pelos outros, erguida por nós próprios.

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Não é somente a resistência em pedir ajuda, é principalmente a resistência em precisar de ajuda. Na nossa sociedade, precisar de ajuda é um tabu, é visto como uma fraqueza. Estar triste, receoso ou zangado é algo para esconder, até do nosso próprio pensamento. Então escondemos. Os filhos para os pais não se zangarem, os pais para não preocupar os filhos. Aos colegas, porque temos que parecer sempre activos e entusiasmados. Porque a sociedade promove constantemente modelos de felicidade, força e sucesso, que nos amarram a uma necessidade de nunca falhar, parar ou cair.

Esta ditadura do estoicismo poderá ser um mecanismo de sobrevivência importante em tempos de grande crise, mas prolongada aumenta a ansiedade, o estado de alerta, promove a falta de esperança e a depressão.

Rompe as costuras de quem suporta, já em esforço, vulnerabilidades psíquicas que herdou pela genética, ou pela história de vida.

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Como disse Vitor Frankl, neuropsiquiatra que viveu e sobreviveu ao Holocausto, “Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos “. Mudarmo-nos a nós mesmos em saúde, é quase sempre ter um novo olhar, orientação ou estratégia que desenvolvam recursos em nós e que promovam uma capacidade de adaptação construtiva e generativa, em vez da silenciosa e em esforço.

Vamos assim ao encontro de nós mesmos para este desafio, de poder aproveitar a vida inteiros e em saúde mental, quebrando a barreira da vergonha e procurando ajuda nas portas que estiverem abertas, porque apesar de tudo, nunca houve tanta vontade de acolher o sofrimento e restaurar a paz, como agora.

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Ana Gabriela Silva
Psicóloga Clínica
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