18 Maio 2022, Quarta-feira
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Einstein, Freud e a guerra

Entre 1933 e 1935, o Instituto Internacional de Cooperação Intelectual (surgido em Paris, em 1925, dependente da Sociedade das Nações), antecessor da UNESCO, publicou quatro volumes de correspondência entre reconhecidos pensadores sobre questões prementes para a civilização.

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O segundo, “Porquê a guerra?”, reuniu duas cartas trocadas entre Albert Einstein (1879-1955) e Sigmund Freud (1856-1939), de que há diversas traduções portuguesas (Publicações Europa-América, em 2007; Cultura Editora, em 2017; revista “Visão – Biografia” dedicada a Einstein, de Novembro de 2021).

Ambas as cartas (datadas de 1932), com a brutalidade da Grande Guerra (1914-1918) no horizonte, foram publicadas em 1933, ano em que Hitler ascendeu a chanceler na Alemanha e iniciou a perseguição aos judeus naquele país, contexto que levará os dois subscritores, pelas suas origens, a conhecerem o exílio.

De Potsdam, em 30 de Julho, a missiva de Einstein questiona: “existe alguma forma de libertar a Humanidade da ameaça da guerra?” A pergunta surge porque “aqueles cujo dever é abordar o problema de forma profissional e prática estão apenas a tornar-se mais conscientes da sua impotência para lidar com ele”.

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Defensor dos direitos humanos e pacifista, Einstein advoga a “constituição, por consenso internacional, de um organismo legislativo e judiciário para ajuizar cada conflito que surja entre as nações”, embora mantendo as reticências, pois “um tribunal é uma instituição humana”, com veredictos que podem ser limitados “por pressões extrajudiciais”.

Consciente da “ânsia pelo poder que caracteriza a classe governante”, interroga-se sobre as razões por que esta minoria consegue “dobrar a vontade da maioria”, vulnerável e sofredora, concluindo que escolas, imprensa e igreja ao lado da minoria favorecem o estado de coisas.

Outras questões: como levam estes órgãos os seres humanos a sacrificarem as suas vidas? Terá o homem tem dentro de si, latente, o sentimento do ódio e da destruição? E será possível controlar este sentimento destrutivo?

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Einstein acreditava que Freud sugeriria “métodos educativos, situados mais ou menos fora do âmbito das políticas”, eliminadores destas incongruências, abordando “o problema da paz mundial à luz das suas descobertas mais recentes”.

Em Setembro, Freud respondia de Viena, explicando o problema a partir da sua especialidade.

Primeiro: “os conflitos de interesses entre homens são resolvidos pelo uso da violência”, seguindo o que “é uma verdade em todo o reino animal”, apenas se substituindo a força muscular pelas armas.

Segundo: uma das facções tem de ser inutilizada, seja pela morte ou pela intimidação. Depois, a violência pode encontrar resistência na união da comunidade, na lei, mas as leis passam a ser feitas pelos mais fortes e, consequentemente, podem “determinados governantes colocar-se acima das proibições que se aplicam a todos os outros”, passando da esfera da lei para a da violência, levando os “oprimidos” a “constantes esforços para obterem mais poder” e alterações.

Quanto ao conflito entre comunidades, quase sempre resolvido pelas armas, acaba no saque ou “pela completa deposição e pela conquista de uma das partes”. Dada a explicação, Freud concorda com Einstein, defendendo “a criação de uma instância suprema e a necessidade de a empossar do poder necessário” como construtores da paz.

Freud conclui aproximando-se de Einstein – “a principal razão pela qual nos rebelamos contra a guerra é porque não o conseguimos evitar fazer”, crendo que “a atitude cultural e o medo justificado das consequências de uma futura guerra” determinarão “um fim à ameaça da guerra”. A única certeza é aquela com que fecha a mensagem: “o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra”.

Infelizmente, a barbárie tem prosseguido, quase um século depois. E a civilização continua a perder…

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