2 Dezembro 2021, Quinta-feira
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Saramago e Aristides, exemplos maiores

Portugal prestou recentemente uma justíssima homenagem a dois seus ilustres filhos: Aristides de Sousa Mendes e José Saramago. Em comum, tiveram o humanismo e grande dedicação ao seu semelhante.

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O primeiro, arriscando a sua vida profissional, a carreira de diplomata, assim como o bem-estar da sua família. Mesmo com a França ocupada, sob a ‘pata’ nazi, onde se encontrava colocado (Bordéus) como Cônsul, não hesitou desobedecer a Salazar para salvar milhares de vidas ameaçadas por outro facínora: Hitler.

Saramago colocou toda a sua prodigiosa imaginação, talento e arte, ao serviço dos mais humildes e explorados.

O primeiro, pagou caro pelo seu gesto altruísta. Tal como previsível, o ditador não o perdoou. Foi demitido e impedido de exercer advocacia ou qualquer cargo público e aos seus filhos negado o acesso ao ensino superior. Morreu na miséria, mas declarou publicamente, por diversas vezes, que nunca se arrependeu do que fez.

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É respeitado internacionalmente e, simbolicamente, repousa no Panteão Nacional.

O nosso Prémio Nobel da Literatura e Prémio Camões, mesmo depois do 25 de Abril, teve dissabores por se situar político-ideologicamente onde se situava. Houve até, como se sabe, um governante que tentou censurá-lo.

Saramago considerava a escrita como outro trabalho qualquer. Por isso, para atingir o prestígio nacional e internacional que atingiu, embora não sendo esse o seu objectivo, documentava-se o melhor que podia.

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Portanto, não foi “apenas”, como se disse, a sua prodigiosa imaginação, talento e arte que o guindaram ao reconhecimento universal. Foi também a sua humilde origem e, sobretudo, como comunista, a sua vontade de explicar e transformar o mundo.

Falei com ele duas ou três vezes. Uma delas, mais demorada, foi no final de um debate e sessão de autógrafos na Festa do Avante. Entre outras coisas, sendo eu alentejano, mas ele não, embora sabendo que viveu durante algum tempo numa cooperativa da Reforma Agrária no Alentejo, e a propósito do seu livro “Levantado do Chão”, perguntei-lhe porque é que sabia tantas expressões, tanto vocabulário, típico do Alentejo.

Devo confessar que a pergunta foi mais para o ouvir… Olhou-me calmamente e disse: “Ó camarada, eu não nasci com o ‘cu’ virado para a lua! Não nasci em berço de ouro!”. E contou-me peripécias da sua infância e adolescência, quando ia a casa dos seus avós maternos, Jerónimo (por quem tinha uma grande admiração. O homem mais sábio que conheceu. E analfabeto!) e Josefa, com as gentes e animais nos campos da sua Azinhaga natal.

No Inverno, chegou a dormir com bacorinhos na sua cama para os aquecer. Num mundo onde impera a injustiça, tanta dela, baseada no egoísmo, na exploração e na ignorância, homens como Saramago e Aristides são exemplos. São referências intemporais. São faróis que nos apontam os caminhos da justiça, do humanismo e da dignidade. Engrandecem e projectam Portugal no mundo.

Portanto, todas as deferências lhes são justas. Um orgulho para todos nós, compatriotas.

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Francisco Ramalho
Professor, Corroios
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