3 Fevereiro 2023, Sexta-feira
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República sempre, novos rumos

Há dias, por casualidade, dei por mim a revisitar o álbum de Zeca Afonso “Contos velhos, novos rumos” de 1969. É sempre positivo revisitar o passado (e a poesia e a boa música…) e ver a forma como se interligavam conceitos como a democracia, a liberdade e a igualdade, o modo como estes eram traduzidos em arte. A sociedade, sobretudo a ocidental/europeia, tende a entender estas noções como algo garantido e inalienável,  de algum modo, como dado adquirido. É por isso que é útil, numa república como a nossa, que completou ontem a bonita idade de cento e onze anos, pensarmos como se articulam hoje estes princípios no espaço público, institucional e da decisão política e naquela que é a sua praxis, de facto.

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Ninguém contesta que vivemos em democracia em Portugal. Sobretudo se nos conseguirmos abstrair das histórias de vida tremendas, oriundas de outras partes do mundo, de privação de direitos e de liberdades fundamentais, como o testemunho de vida de Zarifa Ghafari, a ativista afegã, nos ilustra. Mas isso não quer dizer que possamos descurar o rumo da nossa república ou a qualidade da sua democracia.

Por exemplo, e ainda a propósito de Zarifa Gafhari, quão próxima está a mulher portuguesa do centro da decisão política? Como é claro, mais próxima do que a afegã. Mas isso não impede que, por exemplo, nestas últimas eleições autárquicas, tenha havido menos mulheres presidentes de municípios, apesar de haver certamente mais mulheres vereadoras, apenas porque a lei – agora – assim o exige. Com otimismo, acredito que esse aumento na vereação se deva também a medidas que foram tomadas, de implementação de um paradigma de conciliação e de equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar, harmonizado com a escolha pessoal.

Um dos desafios que se colocam ainda à nossa república é precisamente o da concretização plena de um dos seus princípios soberanos – a dignidade da pessoa humana e o empenho na construção de uma sociedade livre, justa e solidária. Com todas as valências que isso implica (saúde, justiça, educação, luta contra a corrupção, entre tantas outras) e das quais os direitos da mulher são só um exemplo. O rumo da solidariedade é o único que permite à república credibilizar-se a si mesma.

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Perpetuar a ética republicana passa também por um diálogo adequado com a nossa história e o nosso passado, sem polémicas e sem extremismos. Já mais que uma vez afirmei que não somos donos da História, nem seus juízes. Quanto muito, poderemos ser seus alunos. Contar e ensinar (já agora, traduzir em arte) a história da república portuguesa e da sua democracia, é tão importante como reproduzir a nossa epopeia marítima. No mundo em que vivemos, em que as tentações radicais, xenófobas e individualistas cada vez mais abundam, essa pedagogia, mais do que útil, é necessária e condição de sobrevivência para a democracia. Viva a República!

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