18 Outubro 2021, Segunda-feira
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A Verdade e a História

Vivemos hoje num mundo habitado pela mentira. Com pompa e circunstância anunciou-se a chegada ao paraíso da pós verdade. O que parece ser verdade é mais forte e mais verosímil que a própria verdade.

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Consumimos, ainda que não saibamos, mentiras verosímeis porque se sustentam nos nossos temores, estudam os nossos desejos, se baseiam no senso comum. Cegos, com tanto brilho ruidoso, ingerimos avalanches de verdades mentirosas que possibilitam Bolsonaros, Trumps, Brexits, guerras, destruições, juízos infundados.

Tudo parece óbvio.

Na verdade, não há nada mais mentiroso do que o óbvio, (evidentemente), com o seu violentíssimo brilho artificial que se instala, reluz, aplaude e castiga. Elege. O óbvio, o que nunca existiu, passa a existir e a dirigir os nossos dias.

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A tudo isto se junta uma acústica viciosa, ampliada pelos media e redes ditas sociais, cujo ofício passou a ser a propalação do nada transformado em facto e a apresentação a tempo e horas de provas que não provam coisa alguma.

Na sombra, os ratos trabalham clicando mentiras. São os proletários das fake new, esse produto do embrutecimento cultural global.

O algoritmo ajuda.

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Por isso mesmo, reflectir hoje sobre a verdade, mais que um mero exercício filosófico, é tarefa que se impõe. Tarefa cidadã.

A História e a Verdade

Recriar o passado, entendê-lo, escutá-lo na sua multiplicidade de vozes, são as funções que se impõem aos historiadores. Quando falamos de História não falamos de uma ciência pertencente ao grupo das chamadas ciências exactas, como por exemplo a química ou a física.

Aí, nesses campos científicos, será possível prever, a partir de dados observáveis e de hipóteses construídas pelo pesquisador, determinado resultado. Nada se passa assim em História.

Nenhum historiador viveu na Idade Média ou, dando um salto no tempo, esteve em Lisboa, na Rotunda, na Revolução republicana. E, no entanto, temos bibliotecas inteiras que nos permitem saber como era a vida medieval e rios de tinta correram já sobre a implantação da República em Portugal, retomando os exemplos a que atrás nos referimos.

A História será assim a tentativa permanente e rigorosa de reconstruir o passado e, à luz dos conhecimentos de hoje, por aproximações sucessivas, tentar chegar à verdade histórica.

Entre os factos que se estudam e a sua interpretação está o historiador, essa figura apaixonada por determinado período de tempo, que permanentemente esgravata no passado, interrogando-o com a avidez dos possuídos pela febre do ouro.

O historiador, contudo, carrega consigo o seu próprio passado, onde se inscrevem as suas convicções, ideologias, livros lidos, encontros regulares ou acidentais, emoções, traumas, percursos de vida, locais de nascimento, genealogias várias, culturas diversas. Tudo isso, numa grande amálgama faz, modela, interfere no olhar do Historiador.

O trabalho do historiador está no resgate que faz ao passado dos factos nele ocorridos, socorrendo- -se das fontes históricas, utilizando uma estrutura metodológica rigorosa, por forma a chegar a conclusões sobre o que eventualmente é a verdade sobre o facto que se estudou.

Ainda que a busca da verdade norteie sempre o investigador, não há na História verdades absolutas. Os factos e vestígios pesquisados apontam-nos caminhos, pelos quais enveredamos, ou não, conforme a perspectiva por que são vistos.

Um mesmo facto pode ser tratado de formas diversas, sem que qualquer historiador possa dizer que possui nas linhas que escreveu a verdade total, absoluta, conclusiva, indiscutível, do que na realidade ocorreu, no tempo e lugar em que o evento sucedeu ou se foi sucedendo.

A pesquisa que cada investigador leva a cabo contém a carga da ideologia, da análise, da pessoa que faz a investigação.

O próprio conceito de fonte histórica tem evoluído ao longo do tempo. Os positivistas pensavam que a fonte histórica era meramente documental. E dentro do espectro documental, surgia, eivado de verdade incontestável, o documento oficial.

A historiografia contemporânea entende hoje que o documento é apenas uma das fontes históricas, munindo-se de um amplo manancial de recursos. Nessa panóplia de meios, cabe, na perspectiva de Marc Bloch, tudo o que foi produzido, quer seja material ou imaterial e que possa fornecer informações sobre o passado que ali se refugia.

E mesmo os documentos, nas palavras daquele historiador, “só falam quando os sabemos interrogar”. Só assim conseguiremos, admita- -se, chegar perto da verdade. De uma provável verdade.

A origem da palavra História remete-nos para a expressão grega “Istoria” que tem dois sentidos: um objectivo – o que aconteceu – e outro, subjectivo – o conhecimento do acontecido. Entre aqueles sentidos permanece um mar de interrogações que se vão refazendo à medida que a luz do presente incide sobre aquele passado.

Para Heidegger, a fonte da História está no passado, mas só o presente é criador de História.

Assim sendo, a escrita da História é um processo sempre inacabado. Melhor dizendo a riqueza da História está na sua contínua reescrita, no permanente trabalho de reinterpretação do passado.

Cabe aqui relançar a advertência de historiadores vários relativamente a uma concepção utilitarista de História ao serviço das ideologias.

Quando o investigador, abdicando da sua honestidade intelectual, vai buscar ao passado argumentos históricos para a justificação do status quo de determinado período histórico no qual vive, estamos perante uma amputação do rigor científico essencial à produção da História.

Durante séculos aquilo que se passou no campo da História foi a apropriação por parte dos diferentes poderes, regimes e governos, de personagens históricos e de factos sobre os quais foram tecidos discursos vários.

O Bocage setubalense, liberal, anticlerical, paladino de todas as liberdades foi apropriado pela República e elevado à categoria de símbolo; o mesmo Bocage foi apostatado pelos integralistas e pela Ditadura Militar; o Estado Novo tentou reduzi-lo à brejeirice da piada fácil; a democracia resgatou-o dessa indefinição, recolocando-o na galeria dos grandes poetas.

Deste modo, não será abusivo afirmar que também o poder relativiza e minimiza a verdade e que a História, enquanto perseguidora de verdades pertencentes a um passado que não pode ser revivido, também por ele pode ser, e é, manipulada.

E, contudo, acompanhando Foucault, podemos dizer que a verdade está sempre aí. Não há buraco negro na verdade.

Ela é indissociável da particularidade de cada acontecimento que ocorre num espaço e num tempo singular. A coordenada espaço- -tempo tem aqui uma importância decisiva.

O espaço, porque pode não ser válido em qualquer lugar; o tempo, porque cada coisa só tem lugar num tempo próprio.

Dito isto, há que concluir, dizendo que o historiador não pode nem deve ser visto como um profeta, ou um sábio, ou um louco, ou um inocente ou culpado das conclusões a que chegou.

A verdade em História é uma realidade descontínua, em permanente actualização, não universal, dispersa, irrepetível, que se produz num tempo e lugar próprios.

Entre a frase de Gottfried Keller “A verdade nunca nos escapará” e a afirmação de Walter Benjamim pode ser que o Historiador alcance, com a autonomia do seu esforço, a aproximação ao verdadeiro. Diz-nos Walter Benjamim: “A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz.

O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido.”

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