23 Setembro 2021, Quinta-feira
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O estuário do Sado na nova realidade pós-covid

Sugeriu-me voz amiga que escrevesse um artigo sobre as perspectivas de aplicação da nova PAC (Política Agrícola Comum) à realidade agrícola do Estuário do Sado, na dupla vertente de preservação ambiental, enquanto Reserva Natural, e valorização agrícola, tendo em especial atenção a monocultura do arroz.

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Sem menosprezar a importância do tema, a que me encontro estreitamente ligado como agricultor em modo biológico no Estuário, permito-me, no entanto, alargar um pouco o âmbito da análise ao novo contexto económico na realidade pós-covid, numa perspectiva de desenvolvimento local dos municípios envolventes.

Na verdade, não é mais possível, nem adequado ou eficaz, “desintegrar” a análise do futuro da produção agrícola, em especial em zona de tão elevada sensibilidade e potencial, das restantes vertentes do desenvolvimento económico que com ela se conectam e que, numa perspectiva integrada, podem convergir num modelo de valorização do território de interesse comum.

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A nova agricultura Começando pela nova PAC e pelo PEPAC (Plano Estratégico para a nova PAC), convém referir que as alterações/disrupções que se impõem a partir da sua aplicação plena em 2023, potenciam uma evolução fundamental no actual modelo de monocultura do arroz nas “terras baixas” do Estuário do Sado.

De facto, o enquadramento europeu – do “Green Deal”, das Estratégias “Farm to Fork” e da Biodiversidade “Bringing Nature back into our lives” – reforçado pelas medidas de retoma pós-Covid da “Next Generation EU”, não deixam margem de manobra para a continuidade das práticas convencionais de monocultura “químico-intensivas”, cada vez, aliás, mais inviáveis ambiental e economicamente.

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Oportunidade para a conversão para uma agricultura mais ecológica e sustentável, produtora de alimentos mais saudáveis e mais conformes com as novas tendências dos consumidores, virados para os alimentos biológicos e regionais, numa lógica de proximidade e de preocupações com a pegada de carbono e as alterações climáticas.

A nova economia regional Oportunidade também para o estabelecimento de “cadeias curtas” de preparação e comercialização, que propiciem melhor distribuição na cadeia de valor… Daí parte, necessariamente, a integração com as restantes actividades regionais correlacionadas- turismo de natureza e náutico, pequena indústria transformadora, comercialização local e serviços/fornecimentos diversos (desde os “insumos” específicos ao marketing, promoção de produtos com Indicação ou Denominação de Origem, etc.).

Se perspectivada uma visão e estratégia integradas, poderá caminhar-se para uma (re)qualificação do território, num sentido inovador e enriquecedor a vários níveis: tornar o Sado mais azul e as suas margens mais verdes! (parece poesia para alguns, mas é por aí o futuro!).

Começar a mudança, aproveitando os meios disponíveis para a recuperação Relembrando, aliás, iniciativas em que tivemos oportunidade de participar- do PEDEPES à tentativa de criação da Área Metropolitana de Setúbal (iniciativa da AERSET que apresentou essa alternativa, no momento próprio, aos autarcas e deputados eleitos da região, bem como outras entidades regionais convidadas para sessão sobre o tema realizada na Estalagem do Sado) – e com a aproximação do período de execução dos instrumentos de relançamento económico, muito provavelmente a última grande oportunidade de poder dispor de meios financeiros para sair da situação de atraso regional e nacional em termos de índices de desenvolvimento, torna-se urgente e imperioso reunir esforços e vontades para a criação de um programa específico de desenvolvimento do Estuário do Sado.

Os 4 municípios envolventes do Estuário (Setúbal, Palmela, Alcácer do Sal e Grândola) têm potencial e a oportunidade de promover um projeto de desenvolvimento integrado e participado que, para além de tudo o mais, apresente uma alternativa inovadora de aplicação de recursos, com perspectiva de crescimento “de baixo para cima”, que poderá fazer a diferença no período transcendente para a região e para o país que iremos atravessar muito em breve. Caso contrário, a “bazuca” será mais uma “bazucada” de pólvora seca…

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