29 Junho 2022, Quarta-feira
- PUB -
InícioOpiniãoPENSAR SETÚBAL As Cidades Invisíveis

PENSAR SETÚBAL As Cidades Invisíveis

“O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar”. – Ítalo Calvino

- PUB -

Neste período estival, existem sempre motivos acrescidos para boas leituras.

Um livro que recomendo vivamente é intitulado “As Cidades Invisíveis” do escritor italiano Ítalo Calvino.

 O romance foi publicado em Itália, em 1972, tendo sido  traduzido e posteriormente difundido praticamente em todo o mundo; são conhecidas traduções portuguesas, inglesas, francesas, espanholas, gregas, persas, russas, alemãs, etc.

- PUB -

Marco Polo, o explorador veneziano que no século XIII atingiu o extremo oriente, atravessando um mundo totalmente desconhecido das terras da Ásia, encontra-se diversas vezes defronte do imperador mongol Kublai Khan, descrevendo-lhe as cidades existentes no seu reino.

A narrativa centra-se, portanto, nas histórias ficcionadas que Marco Polo contava a Kublai Khan.

Embora não se possa considerar “As Cidades Invisíveis” um livro de ficção científica, à medida que os capítulos se sucedem, não podemos deixar de nos sentir num mundo extraterrestre, onde a própria noção de Espaço e de Tempo adquirem uma dimensão própria, pela riqueza e diversidade associadas às descrições das cidades.

- PUB -

O imperador solicita a Marco Polo que este lhe conte, através da sua longa jornada, todos os pormenores, e em particular, pretende que lhe sejam descritas as cidades que visitou.

Na sequência da sua narrativa, Marco Polo não se limita somente a uma descrição física das cidades, todas com nomes de mulheres; através da sua construção mental, vai sucessivamente testando os limites da própria imaginação, através de um conto detalhado, baseado nas sensações e emoções que lhe suscitam, com as cores, perfumes, sabores e rumores associados.

É um livro que se pode começar a meio, no fim, deste para o princípio e vice-versa, sem que se perca o interesse, ou sem que a narrativa perca sequencialidade e coerência, a partir de uma pretensa e aparente desorganização, em novelo, a partir de uma narrativa quase de contos ou fábulas infantis, mas que Calvino compõe e interliga de uma forma sublime.

Tudo isto contribui para que o romance não tenha um fim clássico propriamente dito.

Parece mesmo que Calvino faça de propósito e se divirta com os seus leitores; e nós avidamente nos divertimos. E queremos mais.

As cidades e o seu caos, geraram em Ítalo Calvino, uma visão crítica, de uma certa ironia e distanciamento, relativamente à desordem colectiva de pessoas, espaços urbanos e problemas sociais associados. Marco Polo procura dar ordem a todas estas cidades, com a sua fantasia.

E a fantasia é o cerne da questão. A capacidade de irmos mais além daquilo que os nossos olhos percepcionam

As cidades de Calvino não são cidades reais, mas são cidades que Marco Polo imagina a partir daquelas que lhe vão concretamente surgindo.

Mas nem por isso lhes retiram a magia.

Uma viagem pela cidade, tendo como transporte urbano a memória ou a fantasia, é tão válido – se não for mais – como uma viagem real.

Vale a pena ler. E reler.

Boas Férias

Comentários

- PUB -

Mais populares

“Queremos ser uma das maiores potências desportivas do distrito de Setúbal”

Tiago Fernandes, presidente do Juventude Sarilhense

Avó e mãe de Jéssica cantaram em programa da TVI enquanto menina estava sequestrada

Família materna da vítima marcou presença em caravana de “Uma Canção Para Ti” na véspera da morte da criança

Revolta no velório de Jéssica obriga à presença de bombeiros e polícia

Avó paterna e alguns populares revoltam-se com mãe da criança durante a cerimónia fúnebre
- PUB -