22 Setembro 2021, Quarta-feira
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Editorial: Por que precisamos da verdade?

A verdade mais importante não é metafísica, nem doutrinária, mas sim a capacidade de identificar os factos elementares de que a nossa sobrevivência depende

 

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No Verão de 1982 visitei a então URSS. A Rússia pela sua grandeza natural e histórica nunca precisou de motivos especiais para justificar o interesse do turista.

Contudo, nessa altura de intensificação da guerra-fria (crescia na Europa a corrida aos armamentos atómicos, por parte dos EUA e dos soviéticos, que ficou conhecida como a “crise dos euromísseis”), aumentava, naturalmente, a curiosidade para conhecer o outro lado do “Muro”, por parte de um jovem vivendo no extremo ocidental do Velho Continente.

A nota que mais me marcou nessa visita foi o contraste entre o mundo concreto em que as pessoas de carne e osso viviam, onde eram claras as dificuldades e carências – que levariam, apenas alguns anos mais tarde ao desmoronar da própria URSS – e o tom de permanente optimismo que transbordava nos meios de comunicação social e também nos documentos oficiais do Governo, que eram acessíveis em várias línguas.

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No quotidiano, as pessoas viviam nos tons cinzentos da escassez e das dificuldades. No maravilhoso mundo das estatísticas oficiais de Moscovo, tudo corria às mil maravilhas, com imensos gráficos, onde as curvas eram sempre exponenciais, e o sucesso do “socialismo científico” estava antecipadamente garantido.

Muitas décadas depois vim a saber que, também nesse ano de 1982, mas nos EUA, a maior companhia petrolífera do planeta, a Exxon (hoje ExxonMobil), tinha obrigado o seu departamento científico a meter na gaveta um extraordinário relatório científico de 40 pp. (hoje acessível através da internet) onde se projectavam, com extraordinário rigor, as concentrações de gases de estufa no horizonte de 40 anos (ano 2020).

Nesse mesmo relatório, chamava-se a atenção, sempre em linguagem sóbria e moderada, para os riscos climáticos e ambientais associados a uma tão rápida e vasta alteração da estrutura química da atmosfera, provocada pela total dependência da economia mundial do consumo de petróleo e de outros combustíveis fósseis.

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Os patrões da Exxon fizeram o mesmo que Brezhnev e os outros discípulos de Estaline que na altura governavam a ex-URSS: puseram à frente o seu interesse egoísta e mesquinho, seja a ganância do lucro, para os primeiros, seja a vontade de poder ditatorial, para os últimos.

No caso da URSS, a humanidade não terminou num holocausto nuclear apenas pela miraculosa acção de Mikhail Gorbachev, um dirigente comunista que resolveu enfrentar a verdade das dificuldades materiais, políticas e até morais dos povos da URSS e tentou fazer uma reforma que acabou por desintegrar a URSS. Contudo, o saldo de Gorbachev é absolutamente positivo.

O seu respeito pela verdade objectiva, chegou tarde para mudar o regime, mas foi muito a tempo para salvar a humanidade de uma III Guerra Mundial de extermínio total, que teria ocorrido com elevada probabilidade se outro dirigente soviético, da linha dura, tivesse subido ao poder em vez de Gorbachev.

No caso da Exxon e dos criminosos que se sentavam na sua administração em 1982, a situação é muito mais trágica. Apesar de o Congresso ter efectuado audições sobre este caso em 2018, os culpados continuam impunes.

Infelizmente, as nossas democracias, a começar pela mais poderosa e robusta de todas, a norte-americana, estão corrompidas pela plutocracia que manda no mundo, como se viu no modo patético e servil como as ambientalmente danosas corridas ao espaço de bilionários irresponsáveis e indiferentes às angústias do resto do mundo, foram tratadas pela imprensa generalista à escala global.

A influência corruptora do dinheiro explica como é que o Ocidente deixou que a sua prosperidade fosse baseada no escamotear dos alertas da parte mais consciente da comunidade científica (também nela existem mercenários, não tenhamos ilusões), ao ponto de hoje a economia continuar dominada por um pendor autofágico, devorando a Terra e reduzindo cada vez mais a margem de manobra dos nossos filhos.

A verdade que constituiu o fio condutor deste número comemorativo, e extraordinário pela sua qualidade, de O SETUBALENSE, que ao longo de muitos meses, mobilizou a sua equipa de profissionais e muitos colaboradores, é esta: a verdade mais importante não é metafísica, nem doutrinária, mas sim aquela que se prende com a capacidade de identificar os factos elementares de que a nossa sobrevivência vital depende.

O verdadeiro jornalismo sempre se bateu pela verdade factual, por dizer o que acontece. O que se opõe à verdade fundamental de que a vida depende não são as opiniões. São as mentiras.

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Viriato Soromenho-Marques
Professor da Universidade de Lisboa
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