21 Junho 2021, Segunda-feira
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Vacinação covid-19: Ninguém pode ficar para trás

Não se pode obrigar a ser vacinada/o contra a SARS-COV-2 quem não o queira ser. É uma questão ética que passa pelo respeito inalienável da vontade livre de cada pessoa. Mas é preciso que a recusa não tenha como fundamentos informações deturpadas e medos como o que se instalou com as dúvidas resultantes de possíveis reações adversas das vacinas, concretamente, a difundida com a marca Astra Zeneca. Os níveis de iliteracia que impossibilitam uma correta interpretação da disparidade informativa vinculada pelos media; o isolamento social favorável à desconfiança pelo interesse de alguém pelas suas vidas e a idade avançada que potencia resistências difíceis de compreender, poderão ser possíveis causas para rejeitar a vacinação.

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Aceito que a pressão exercida sobre o pessoal de saúde para que se alcance, rapidamente, a imunidade de grupo, vacinando a maior parte dos cidadãos, gere grande cansaço e impaciência que leve a procedimentos profissionais e humanos menos recomendáveis.

Qualquer uma das realidades referidas merecem uma atenção cuidada para que não seja amachucada a dignidade de ninguém. Neste caso, há que ponderar que a vacinação não é uma medida proteção meramente possibilidade, mas que tem uma dimensão social para o atingir o objetivo pretendido.

Fonte segura partilhou comigo uma situação vivida, na primeira pessoa, numa região do nosso país que me pareceu insólita e pouco humana. A minha amiga é cuidadora informal de uma senhora octogenária que vive só e num lugar relativamente distante da casa da sua cuidadora. Quando ouviu dizer que uma marca de vacina tinha criado problemas de saúde em algumas pessoas, fez saber que não queria ser vacinada. Não se chegaram a aprofundar as consequências desta primeira abordagem desfavorável. Passado pouquíssimo tempo, a instância de saúde competente, contatou a cuidadora, pensando ser a idosa, para informar que a toma da vacina estava marcada para o dia seguinte. Descontraída, a cuidadora fez saber a resistência da destinatária e pediu uma a duas horas – tempo para se deslocar ao domicílio da convocada- a fim de a convencer. Do outro lado da linha, a recusa foi perentória e a sentença irrevogável: a idosa ia ser, de imediato, riscada da lista. A minha amiga ficou perplexa pelo excesso de funcionalismo da interlocutora.

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É óbvio que a vacina não poderia ficar guardada, à espera, de se conseguir chamar à razão a idosa. Convocar outra pessoa para ocupar a vaga aberta seria, sem dúvida, a atitude, na ocasião, mais correta. O que já parece estranho é que não se tivesse revelado algum humanismo, permitindo uma possibilidade, com uma data-limite, para que o serviço fosse informado da decisão definitiva da cidadã convocada. Não se pode tratar como igual o que é diferente. Há vulnerabilidades sociais, como o isolamento e a ignorância, que devem ser consideradas.

Faça-se tudo para que ninguém fique para trás seja no que for, neste caso na vacinação contra a COVID 19, pois os custos humanos, sociais e económicos são muito mais gravosos.

Eugenio Fonseca
Presidente da Cáritas Portuguesa
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