19 Junho 2024, Quarta-feira

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“Sempre lutei por uma maior humanização no hospital”

“Sempre lutei por uma maior humanização no hospital”

“Sempre lutei por uma maior humanização no hospital”

Antigo cirurgião foi pioneiro no pacemaking, esteve na guerra colonial, presidiu o Hospital de São Bernardo, mas maior orgulho é a criação da Liga dos Amigos dos Hospitais

 

Nascido na cidade do Sado, Eduardo Soveral Rodrigues foi pioneiro na instalação do Pacemaker, fez das “tripas coração” enquanto cumpriu o serviço militar na Guerra Colonial, foi um cirurgião conceituado, formou muitos profissionais e presidiu a administração do Hospital de São Bernardo, mas ainda assim o seu principal orgulho é estar na criação da Liga dos Amigos dos Hospitais. Eduardo Batalha Soveral Rodrigues é o médico que vai ser homenageado pelo centro hospitalar de Setúbal, fruto do seu longo percurso na área da saúde e que no final da sua carreira decidiu dedicar-se mais à “humanização” do hospital sadino. Em entrevista a O SETUBALENSE, o cirurgião partilha todas as memórias no seu percurso e avalia também o estado actual da saúde em Portugal.

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Como é que foi a sua experiência no exército?

Fiz das tripas coração. Graduaram-me em tenente, logo eu que não percebo nada de tropas e de militares, mas lá fui. Fui encarregue de ser o director do hospital militar porque era o médico mais graduado. Nos dois anos e alguns meses que lá estive exerci um pouco de todos os cargos. Era cirurgião, mas também fiz medicina interna, fiz partos, basicamente fiz tudo aquilo que podia fazer. Existia uma grande carência de médicos e eu era apenas mais um que tinha de trabalhar e principalmente servir a população. A principal diferença foi, por exemplo, eu no Hospital de Santa Maria já fazia alta cirurgia, mas lá estava de costas quentes, ou seja, se estivesse aflito tinha sempre algum colega que me poderia auxiliar. Lá era ao contrário, tinha efectivamente de assumir a minha posição. O que mais aprendi lá foi a trabalhar por conta própria e não precisar de ninguém para me ajudar. Foi muito bom para mim e para a minha profissão.

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Sentiu muitas dificuldades na gestão do São Bernardo?

O hospital tinha carências não só humanas, como também de instrumentos e era muito difícil obtê-los. Eu era solicitado maior parte das vezes para gerir esses conflitos. Nunca pensei que seria tão difícil, mas foi mesmo. Mas lá fui fazendo, fui aguentando e mantendo uma linha sempre correcta e justa. Foi assim que eu percorri todo esse trajecto, com ou sem dificuldades, tinha de ser feito e era assim que eu encarava.

Como se justifica o estado a que chegou a saúde em Portugal?

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Houve erros cometidos, não só no próprio hospital, mas também a nível governamental. Um dos erros principais e que provoca alterações grandes perturbações no serviço de urgência é a existência de urgências que não são urgências. No meu entender foi um grande erro terem terminado com o serviço de domicílios. Existiam médicos cuja sua função era chegar ao centro de saúde e levantar a lista de pacientes que tinha de visitar em casa. Isto facilitava o serviço de triagem, porque a triagem começava logo em casa e quem aparecia na urgência já só eram casos mais ‘graves’.

A evolução da medicina não devia ajudar os profissionais?

A medicina começou a ser demasiado industrializada, os doentes quando chegam são logo mandados a fazer uma série de exames, já não existe o cuidado médico. Os meus colegas foram instruídos a seguir determinados princípios para observação de doentes. Esses princípios eram antigos, mas bastante eficazes. As coisas começaram-se a fazer de trás para diante, ou seja, a construção da casa começou a fazer-se do telhado. Podem dizer que sou antigo, conservador ou velhote, mas é isto que defendo. Na nossa altura, sem quase nada, conseguíamos fazer o diagnóstico e salvávamos muita gente. Se alguns profissionais actualmente tivessem de trabalhar sem máquinas como é que faziam?

Considera que existe falta de ligação entre médicos e doentes?

Eu considero que um hospital deve ter, e foi aquilo pelo que sempre lutei, uma maior humanização. É algo muito importante. O doente, quando adoece não é só fisicamente, mas também psiquicamente. O doente é visto como apenas ‘mais um’ e ninguém se sente bem com isso. Chega ao centro hospitalar, é colocado numa maca e anda lá de um lado para o outro. Saiu do seu meio ambiente e foi para um lugar que desconhece, e uma pessoa que já está doente fisicamente, vai ficar ainda pior porque o seu nível psíquico vai adoecer mais e uma coisa está relacionada com a outra. Foi uma grande preocupação minha, fundei o sistema de voluntariado para se humanizar o Hospital de São Bernardo. Depois daí, nasceu também a Liga dos Amigos do Hospital de São Bernardo, que também é muito importante. É disso que eu me orgulho mais ainda, de criar a Liga dos Amigos dos Hospitais e que ainda funciona. O doente sente-se acarinhado, sente-se como se estivesse rodeado pelos seus familiares ou em casa. Isso é muito importante.

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