11 Maio 2021, Terça-feira
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Indústria conserveira pode estar de regresso à vila sesimbrense

José Nero é neste momento o único produtor de conservas com ligação a Sesimbra

 

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A indústria conserveira tem uma história de mais de dois mil anos em Sesimbra, onde, em meados do século XX, chegaram a existir 14 fábricas a laborar. Na segunda metade do século XX, a última fechou portas. Hoje, existem intenções de recuperar a tradição conserveira em Sesimbra e José Nero, “com grande vontade de fazer regressar ao presente a qualidade das conservas do passado”, é o principal responsável.

Em 1680, a família Nero instala-se em Sesimbra para produzir e exportar peixe seco e salgado e em 1912 Amadeu Henrique Nero, avô de José, funda, com os seus sócios, a fábrica de conservas “A Persistente”. José Nero já nasceu no Porto mas mantém com a vila “uma ligação sentimental e familiar”.

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“Acredito que acabamos sempre por voltar às origens e foi por isso que em 2010 resolvi retomar o negócio das conservas. Como já não tínhamos fábrica, a última unidade produtiva que tivemos fechou em 1996, no Montijo, comecei a encomendar a produção noutras fábricas e a utilizar marcas centenárias, nascidas em Sesimbra no tempo do meu avô, como Catraio, Georgette, Naval e Açor”, começa por contar José Nero a O SETUBALENSE.

“Quando fiz o lançamento do atum Catraio em 2010 em Sesimbra, as pessoas mais antigas lembravam-se, mexeu com a memória colectiva, e nesse sentido pensei em lançar uma conserva relacionada com Sesimbra”, adianta. É lançada nesta altura a conserva de peixe-espada preto, nunca antes feita e considerada “uma inovação”, tendo sido a força que faltava para relançar as conservas Nero. Até hoje nunca mais pararam, contando com cerca de 60 referências no mercado.

Ideia passa por pequena fábrica para produção específica

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Mais recentemente, Custódio Lopes, detentor de barcos de pesca em Sesimbra, desafiou José Nero a fazer uma conserva com “cação seco, a que tipicamente chamam em Sesimbra cão-do-monte ou cademonte. Como ele também seca o peixe, desafiou-me a fazer uma conserva. Deu-me três para fazer testes e o feedback de toda a gente que provou foi positivo”.

Surge assim a ideia de voltar a trazer a indústria conserveira para o território, com a criação de “uma pequena fábrica para produção específica de espécies como esta e o peixe-espada de Sesimbra e para valorização de outras espécies da região”. De acordo com José Nero, a Câmara Municipal mostrou-se disponível para apoiar no que pudesse e combinaram reunir, quando a pandemia permitisse, para “avaliar a possibilidade e viabilidade de se avançar com algo desta natureza”.

Sobre esta possibilidade, Francisco Jesus, presidente da Câmara Municipal de Sesimbra, diz a O SETUBALENSE que o município conhece “o interesse do herdeiro de uma das principais conserveiras em retomar actividade em Sesimbra e, caso se concretize essa intenção, vamos estar ao seu lado a apoiar a ideia”.

Nas suas palavras, “embora não dependa propriamente da Câmara Municipal, estamos, naturalmente, receptivos ao retomar de uma actividade que já teve uma enorme importância na

vila, intimamente ligada à economia do mar, o nosso principal recurso, e que pretendemos dinamizar cada vez mais com projectos sustentáveis, que possam gerar emprego e mais-valias para o município”. No que diz respeito à recuperação desta tradição para Sesimbra, a nível cultural e económico, Francisco Jesus considera que seria “muito interessante, do ponto de vista da preservação da história, das tradições e da memória colectiva” e que hoje “provavelmente não teríamos uma produção industrial e em massa como nos séculos XIX e XX mas uma visão mais vocacionada para o turismo e para o chamado mercado gourmet”.

O município tem vindo a produzir conservas de carapau, sardinha e cavala, com pescado capturado pela frota de pesca de Sesimbra, vendidas na loja Yes Sesimbra. “Fazêmo-las na época do ano em que estão desvalorizadas e são vendidas sobretudo como isco, numa perspectiva de sustentabilidade e valorização do pescado”, explica, rematando que “a criação destas conservas foi também uma forma de despertar a comunidade para a sua importância e para o mercado que actualmente poderá ter”.

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