11 Maio 2021, Terça-feira
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Marlene Pedreirinho: “Alguns utentes possivelmente ficarão com mazelas [da pandemia]”

Psicóloga da Santa Casa da Misericórdia de Canha revela ter sido necessário reforçar o acompanhamento individual, para colmatar a solidão e isolamento dos idosos

 

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Feita uma avaliação psicológica assim que são admitidos na instituição, os utentes da Santa Casa da Misericórdia de Canha (SCMC), no Montijo, são acompanhados diariamente pela psicóloga Marlene Pedreirinho. Contudo, o seu trabalho começou a ter um valor acrescido no decorrer do último ano, com a chegada da pandemia. As estratégias desenvolvidas tiveram de ser adaptadas e os idosos preparados para a nova realidade, ao passarem a estar privados de terem contacto familiar. Para a psicóloga, só o tempo poderá ditar que mazelas permanecerão, uma vez que a nível emocional, alguns seniores demonstram estar ainda fragilizados.

Que diferenças sentiu no seu trabalho com a chegada da pandemia?

A diferença que notei foi essencialmente ao nível de regras na intervenção, uma vez que teve de haver uma adaptação. Passei a ter um cuidado acrescido com os contactos e proximidades, tentando, em simultâneo, colmatar a ausência [dos familiares] com um aumento do acompanhamento psicológico individual.

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Os utentes aderem bem ao acompanhamento psicológico?

Sim, no geral aderem com facilidade. Claro que depende da personalidade de cada um. Às vezes, numa fase inicial, pode ser um pouco mais difícil a criação da aliança terapêutica, mas no geral a adesão corre bem.

Considera essencial a SCMC, e outras similares, contarem com o trabalho de um psicólogo?

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Sim, porque pode contribuir para um envelhecimento activo. Podemos rentabilizar o potencial desta fase de vida e promover um estilo de vida activo.

Com a pandemia, as preocupações dos utentes alteraram-se?

Sim. Foi aqui que tive um trabalho acrescido, tanto a nível emocional como psicológico. Foi uma nova realidade para eles [utentes] e para nós [profissionais de saúde]. Para os utentes, o que teve mais peso foi a privação do contacto familiar. Tentámos promover esse contacto com videochamadas, mas não haver contacto físico foi difícil. Neste campo, o psicólogo pôde ajudar a compreender e intervir nos problemas que a solidão e o isolamento causam, ao adquirir estratégias para lidar com o seu próprio sofrimento emocional.

Que estratégias foram implementadas nesse sentido?

Tentámos mantê-los informados. Acho que a informação é muito importante para que eles pudessem compreender a nova realidade e para sentirem que eram parte integrante no processo e que não estavam esquecidos nem a ser postos de lado. Eles são a nossa prioridade. No fundo, fizemos os possíveis para os proteger.

Foi reforçado o acompanhamento a algum utente?

Existiram alguns utentes que desenvolveram uma sintomatologia ansiosa e depressiva. Nesses casos foi necessário reforçar o acompanhamento psicológico. Tentei também continuar a promover actividades comunicativas com as animadoras socioculturais para tentar minimizar esta carência e para garantir o bem-estar emocional de todos.

Teria feito algo de diferente?

Considero que podemos melhorar sempre. Esta situação foi nova tanto para os utentes como para os profissionais de saúde. Cada um deu, e continua a dar, o seu melhor. Simplesmente o que fiz foi adaptar as técnicas já aplicadas, no sentido de minimizar o sofrimento e ansiedade dos utentes, causados pela pandemia.

Ao nível dos profissionais, e até pessoal, que preocupações notou?

A dada altura, as preocupações dos utentes e dos profissionais acabam por ser idênticas. Falando também por mim, inevitavelmente surgiram dúvidas e receios, que fomos conseguindo colmatar com o trabalho em equipa e cooperação entre colegas. Acima de tudo, enquanto profissional de saúde, desenvolvo o meu trabalho diariamente pelos outros como se fossem meus [familiares]. Se trabalharmos com amor e dedicação, penso que se torna tudo mais fácil, tanto para nós como para o trabalho que desenvolvemos com os nossos utentes, que são a nossa prioridade. É para eles que cá estamos.

Os utentes continuam com incertezas, mesmo passado um ano?

Sim, mesmo passado um ano e mesmo com alguns utentes já adaptados, há utentes que continuam a perguntar quando é que isto acaba, quando é podem abraçar a sua família e quando é que podem sair daqui. A pandemia, ao nível da saúde, teve muito impacto. Para um idoso que está institucionalizado, a solidão e o isolamento são impactantes. Apesar de cada um de nós tentar colmatar esta ausência, os laços familiares prevalecem. Enquanto psicóloga, o que a maioria dos utentes me foi transmitindo em contexto de gabinete foi mesmo essa carência e essa saudade da família e dos amigos.

Prevê que algum utente possa vir a ficar com mazelas?

Nós não conseguimos prever o futuro e não podemos dizer com certeza se vão ficar com mazelas ou marcas. Alguns utentes possivelmente ficarão com mazelas, mas só o tempo poderá ditar a sua profundidade. Tem sido uma vivência que ninguém irá esquecer e que traz a todos novas aprendizagens.

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