27 Maio 2022, Sexta-feira
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Conferência da Uniseti dá a conhecer comunidade alentejana de origem africana

Viagem e reflexão feitas pela professora Isabel de Castro Henriques apontaram ao período entre os séculos XV e XX

 

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A comunidade alentejana de origem africana foi o tema escolhido pela Universidade Sénior de Setúbal para a sessão inaugural da “II Série do Ciclo de Conferências UNISETI CONVIDA”, que decorreu na tarde de ontem, via plataforma Zoom.

No encontro virtual, focado na obra “Pretos do Sado”, esteve como oradora principal a professora Isabel de Castro Henriques. De acordo com a docente, a referida comunidade começou-se a desenvolver a partir do século XV, chegando ao país através de barcos utilizados para o tráfico negreiro.

“Vinham do Algarve e eram comprados pelos comerciantes, que os exportavam para Castela ou então os vendiam a produtores com terrenos agrícolas, inclusivamente na região do Alentejo, que tinha no Sado uma dinâmica comercial muito forte”, explicou.

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No caso do Sado, os negros acabaram por ficar conhecidos por “Pretos do Sado”, “mulatos do Sado”, “carapinhas” ou “atravessadiços”. A professora explicou que tais denominações eram associadas à aparência física dos mesmos e que adquiriram um cunho pejorativo.

Os escravos, como apresentou Isabel de Castro Henriques, poderiam desempenhar qualquer tarefa, de acordo com a vontade do seu proprietário. Tanto podiam trabalhar nos campos agrícolas, como no pastoreio, domésticos ou até mesmo a ajudar no transporte de mercadorias como o sal das salinas. Estes, referiu a professora, vieram sobretudo para
as regiões de Alcácer do Sal, Alvalade Sado, Torrão e Santiago.

Quando chegavam a Portugal, os escravos eram baptizados católicos e era-lhes dado nome português, podendo casar com escravos ou com pessoas livres, e participar em cerimónias religiosas. A associação a algumas confrarias, como a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, fazia com que tivessem alguma protecção e ajuda.

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No entanto, as condições de trabalho eram más, mas o trabalho no arroz era particularmente “terrível”. “Morria muita gente, era muito violento. As mulheres, por exemplo, estavam horas e horas com as pernas dentro de água”, exemplificou a autora.

Segundo a pesquisa desenvolvida por Isabel de Castro Henriques, os escravos viviam com outros trabalhadores e alguns deles gozavam de simpatia dos seus senhores. “Havia aqueles que gostavam e protegiam os seus escravos”, afirmou, acrescentando: “há registos, além das cartas de alforria, que eram concedidas, de testamentos onde os senhores deixavam coisas, ainda que muito simples, aos seus escravos”.

Com a abolição da escravatura e proibição do tráfico negreiro, com decretos de Marquês de Pombal, a comunidade passou da dispersão para a unidade, existindo uma clara expansão e a promoção social, esta última algo remota devido a existir ainda muito preconceito. “É sobretudo a partir daqui, apesar de ainda continuar a haver muitos escravos, que se vê o crescimento de uma comunidade alentejana com origem africana”, explicou.

Para Isabel de Castro Henriques, ao contrário das comunidades africanas mais actuais, mais localizadas nas zonas urbanizadas, que de acordo com a mesma “abraçam a sua africanidade e reclamam para si mais as suas raízes africanas”, esta comunidade, apesar de reconhecer as suas raízes africanas, “adoptou completamente a cultura alentejana”.

Os motivos do estudo

Destacando-se na sua formação o doutoramento em História de África pela Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne, a professora explicou que motivos a levaram a desenvolver o estudo sobre a comunidade alentejana de origem africana, que se centrou sobretudo nas margens do Sado e deu origem à obra “Pretos do Sado”.

“Havia um estranho silêncio sobre esta matéria”, afirmou, apontando as razões para tal silêncio. “Desenvolveu-se em Portugal, desde o século XV, um preconceito anti-africano, anti-negro e anti-escravo”, referiu, explicando que este preconceito foi crescendo sobre três prismas: a cor da pele, a condição social (já que até ao século XIX muitos eram escravos) e a cultural (associava-se uma carga negativa aos costumes e práticas africanos.

A isto, segundo a professora, juntou-se um preconceito científico. “Vimos crescer na Europa teorias que justificavam a inferioridade do negro”. Essas teorias chegaram a Portugal e o preconceito agravou-se seriamente aquando da guerra colonial, quando os negros eram representados como “selvagens e terroristas”.

A autora revelou, ainda, que teve de enfrentar dificuldades particulares na construção da obra, já que a bibliografia era “pouco extensa e pouco detalhada”, a que se juntou uma cartografia “pouco precisa”.

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