Visitar a Arrábida em 1903 (2)

Visitar a Arrábida em 1903 (2)

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Professor

A “Notícia Histórica” com que Sousa Gonçalves abre o livro “Uma Excursão à Serra da Arrábida” prossegue com o elogio a Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), figura indispensável neste trajecto, porquanto a montanha “está tão cheia de recordações do inspirado vate que é de justiça esboçar o seu perfil de asceta, cheio de talento”. Tendo a consciência da importância do frade arrábido, o texto é enriquecido com a transcrição de um artigo datado de 1872 assinado por Bulhão Pato (1828-1912), centrado nas vivências do místico franciscano na Arrábida e nas suas composições poéticas, figura aureolada de santidade — “Catorze anos durou o seu voluntário exílio. A serra, o mar, a lua, as estrelas e as carregadas nuvens, os relâmpagos e as tormentas, foram alternadamente testemunhas das suas dores, das suas santas alegrias, dos seus desalentos e dos seus êxtases místicos! A morte recebeu-o nos braços meiga, risonha e solícita, como um anjo de redenção. O povo, numa piedosa lenda, contava que, ao tirarem o retrato, depois de morto, sorrira alegremente o bem-aventurado monge, concluindo, deste suposto facto, que não era só um bom padre o eremita da serra, mas um inspirado e um santo.” Para Sousa Gonçalves, imperativo se torna visitar a cela que o frade habitou, conforme explica numa rápida justificação em que não estão alheias as suas próprias descobertas e emoções — “O excursionista da Academia de Estudos Livres que chegar até estas paragens por certo relembrará a vida do grande poeta, tão cheio da delicadeza do verdadeiro artista como despido de todos os preconceitos que a vaidade humana acaricia! Um instante de recolhimento, dedicado à memória do asceta retemperará o nosso espírito fortalecendo-o para as lutas da vida. É sempre consoladora a contemplação duma vida pura e desinteressada.”
Sugere depois a “Notícia Histórica” uma visita à Lapa de Santa Margarida, “uma das maiores curiosidades” da Arrábida, com as suas duas entradas (pelo lado da serra e pelo lado do mar), à época, ponto de devoção dos pescadores do Cabo, espaço que alojaria meio milhar de pessoas. Também neste ponto a emoção do narrador se evidencia: “Na hora do maior calor goza-se ali uma frescura deliciosa, ouvindo-se apenas o quebrar monótono das ondas, que, através da boca voltada para o oceano, vêm espraiar-se quase até ao pé do altar. Sentimos então um bem-estar indefinível, acodem-nos ao espírito lembranças acariciadoras da vida passada. É a natureza na manifestação pacífica da sua força, como a incutir-nos pensamentos de paz e amor. Estamos bem longe, então, dos desenganos da vida, embalados pela música das ondas, que maestro algum ainda soube fixar em página genial.” Neste divagar, há ainda espaço para uma nota de cunho científico, ao dar ao leitor “uma ligeira ideia do que são e como se formam essas singulares incrustações calcárias” que são as estalactites e as estalagmites presentes na gruta, umas e outras “produzindo efeitos tão surpreendentes como característicos”.
O final do texto de Sousa Gonçalves para este roteiro de 1903 enuncia os objectivos da apresentação: “despertar o gosto pelas excursões na famosa serra”. Referindo que os muito populares guias Baedeker (existentes desde final da década de 1820) não devem ser “servilmente” seguidos por quem os consulte e goste de “percorrer caminhos novos”, conclui com dois desafios: o primeiro, exigindo a colaboração do leitor excursionista ao dar-lhe “a liberdade de seguir o itinerário que bem lhe aprouver” e incumbindo-o de preencher “as lacunas do presente artigo”; o segundo, apelando ao equilíbrio que o ser humano deve fomentar na sua relação com a Natureza, num repto que, no essencial, faz ainda sentido no tempo em que vivemos, tanto mais surpreendente quanto tem já mais de 120 anos de idade: “Por último, seja-nos permitido desejar que, se alguma vez o progresso invadir a serra da Arrábida, venha pela mão da verdadeira e pura arte. Respeitem-se as ruínas do passado como documentos de sinceridade e respeitem-se não lhes levantando a par, por exemplo, esses horrendos ‘chalets’ de cartão com que qualquer burguês da Baixa se presenteia para gozar os ócios e para digerir a farta pitança. Mandem-nos, a uns e a outros, para os famosos Estoris, que aí é o seu lugar. A serra da Arrábida é uma flor agreste de rara beleza. Se lhe mexem muito, estragam-na.”

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