Queríamos discutir a habitação. Querem-nos fazer discutir a liberdade!

Queríamos discutir a habitação. Querem-nos fazer discutir a liberdade!

Queríamos discutir a habitação. Querem-nos fazer discutir a liberdade!

2 Novembro 2026, Segunda-feira
Deputado Municipal em Sesimbra

O mercado não está a responder à crise da habitação. Num país onde há quem defenda que o mercado resolve todos os problemas, a realidade insiste em demonstrar o contrário, os preços continuam a subir, a oferta não acompanha as necessidades e comprar ou arrendar casa tornou-se um dos maiores obstáculos à autonomia financeira de milhares de portugueses.


Em Portugal, ter uma casa tornou-se, para muitos, um objetivo cada vez mais distante. No segundo trimestre de 2026, os preços das casas subiram 16,5% face ao mesmo período de 2025. Na União Europeia, a subida foi de 4,7%. Os preços portugueses cresceram, assim, mais de três vezes acima da média europeia.

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Quem trabalha tem cada vez mais dificuldade em comprar casa. Apesar de o desemprego jovem estar muito abaixo dos níveis registados durante a crise da Troika, isso não significa que os jovens tenham hoje condições para construir uma vida independente. A idade de saída de casa dos pais continua a aumentar em Portugal, em contraciclo com a tendência de redução registada na União Europeia.


Perante esta realidade, o debate político continua demasiado centrado nos impostos e nos benefícios fiscais. Há quem defenda que reduzir a carga fiscal é a solução para todos os problemas.


A direita apresenta os benefícios fiscais como resposta para quem não consegue comprar casa. Mas de que serve aliviar os encargos de quem compra se os preços continuam a subir a um ritmo que afasta cada vez mais pessoas do mercado. E de que serve reduzir impostos se isso não se traduz em mais casas disponíveis e em preços que as famílias consigam suportar.

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Apoiar quem já tem casa ou aliviar os encargos de quem consegue comprar pode ter utilidade. Mas não garante que as casas fiquem mais baratas, não constrói novas habitações e não resolve a dificuldade de quem nem sequer consegue entrar no mercado.


E talvez seja precisamente esse o problema da direita, reduzir impostos é politicamente fácil. Garantir que há mais casas disponíveis, aumentar a oferta pública e enfrentar os interesses especulativos que beneficiam da escassez exige escolhas mais difíceis.


Não faltam necessariamente soluções para a crise da habitação. Falta vontade política para intervir num mercado que continua a ser rentável para alguns.

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Talvez por isso seja tão conveniente que o debate tenha deixado de ser sobre a habitação e passado a ser sobre as manifestações. Em vez de discutirmos por que razão tantos portugueses não conseguem comprar ou arrendar casa, discutimos quem protesta, como protesta e se tem ou não razão para o fazer.


Esta deslocação do debate é politicamente relevante, por duas grandes razões. O mais evidente, deixamos de discutir o problema da habitação.


A segunda e menos óbvia, mas socialmente mais interessante, é que o acesso à habitação é um problema transversal à sociedade, que não respeita fronteiras partidárias.


Os jovens que não conseguem sair de casa dos pais. As famílias que trabalham e não conseguem suportar uma renda. Quem apesar de terem rendimentos estáveis, não conseguem reunir condições para comprar uma casa. A dificuldade em aceder à habitação não é exclusiva de um eleitorado ou de uma orientação política.


Mas a discussão sobre as manifestações permite criar divisões onde existe um problema comum. Em vez de discutirmos o que une milhares de portugueses, passamos a discutir aquilo que os separa.


Discutir as manifestações é mais fácil. Permite tomar posição sem responder às perguntas sobre os resultados das políticas públicas. Permite criticar quem protesta sem demonstrar que as medidas adotadas estão a resolver o problema. Transforma-se uma crise social numa disputa entre campos políticos, como se a dificuldade em pagar uma casa dependesse das convicções de quem a procura.


A intensificação da resposta policial acaba por ser, neste contexto, a maior carta política do Governo. Quando um protesto por habitação dá lugar a confrontos, cargas policiais e detenções, o debate muda de terreno. Deixamos de discutir por que razão as pessoas saíram à rua e passamos a discutir a violência, a ordem pública e os limites da liberdade de manifestação.


Para o partido que governa, esta mudança de discurso pode ser eleitoralmente vantajosa, passa a assumir o papel de quem promete autoridade, ordem e controlo perante a contestação nas ruas.


O problema é que aquilo que pode ser conveniente para um partido pode ser profundamente prejudicial para o país. A crise da habitação perde espaço no debate e mais grave ainda, começamos a aceitar discutir restrições de liberdades fundamentais em nome da ordem pública.


A liberdade de manifestação não é um obstáculo à resolução dos problemas do país. É uma forma de exigir que quem governa os enfrente. Quando passamos a discutir mais o direito de protestar do que as razões que levam as pessoas a fazê-lo, enfraquecemos um dos instrumentos que os cidadãos têm para exigir responsabilidades políticas.


Queríamos discutir a habitação. Querem-nos fazer discutir a liberdade!

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