«O mundo parece estar a enlouquecer!»
Sempre que ouço esta frase fico a pensar que, de facto, entre a incredulidade, a indignação e uma certa anestesia emocional, sucedem-se acontecimentos que nos levam a questionar não apenas o mundo em que vivemos, mas também aquilo em que nos estamos a transformar enquanto sociedade.
Temos assistido a uma crescente radicalização dos discursos, à normalização de manifestações de violência e até ao regresso de propostas que nos remetem para períodos da história em que a humilhação e a morte de seres humanos eram transformadas em espetáculos públicos.
As opiniões transformam-se em identidades, as divergências em ameaças e aqueles que pensam de forma diferente passam, com demasiada facilidade, a ser vistos como inimigos.
Polarização não significa simplesmente que existem opiniões diferentes. A diversidade de pensamento é necessária a qualquer sociedade democrática. O problema começa quando deixamos de reconhecer legitimidade a uma perspetiva diferente da nossa, quando o outro deixa de ser uma pessoa com quem discordamos e passa a representar o
que rejeitamos ou tememos.
A psicanálise ajuda-nos a compreender este funcionamento. Perante a angústia, a insegurança ou a ameaça, podemos recorrer a mecanismos mais primitivos, como a clivagem, dividindo a realidade entre bons e maus. Esta divisão oferece-nos uma sensação de segurança. Se o mal estiver inteiramente no outro, podemos preservar a ideia de que estamos do lado certo, tornando-se mais fácil justificar a nossa hostilidade e mais difícil reconhecer a humanidade de quem pensamos ser nosso inimigo. Parece haver cada vez menos espaço para a dúvida e para a reflexão.
As redes sociais podem intensificar este funcionamento. A indignação multiplica-se, a violência torna-se familiar e a exposição constante ao sofrimento dos outros nem sempre produz maior sensibilidade. Por vezes, pode produzir habituação, cansaço emocional ou mesmo indiferença.
E é também aqui que importa pensar nas consequências desta realidade para a nossa saúde mental. Uma sociedade marcada pela insegurança ou pela dificuldade em tolerar a diferença pode tornar-se um lugar psicologicamente mais difícil de habitar.
A este ambiente juntam-se as notícias constantes de conflitos e ameaças à estabilidade económica e social. Para muitas pessoas, o futuro está a começar a ser vivido com uma inquietação crescente. Há o receio de perder a qualidade de vida, a preocupação com o mundo em que os filhos vão crescer e a sensação de que acontecimentos distantes podem, a qualquer momento, alterar profundamente as nossas vidas.
A confiança que depositamos nos outros, no futuro, e a possibilidade de pertencermos a uma comunidade sem termos de abdicar da nossa individualidade são importantes para o nosso equilíbrio psicológico.
Parece-me importante reconhecer este mal-estar individual e social. Até que ponto aquilo que sentimos é reflexo do mundo em que vivemos? E até que ponto esse mundo é também reflexo daquilo que sentimos e fazemos com o que sentimos?
Podemos reconhecer a humanidade do outro sem concordar com ele ou abdicar dos nossos valores. É também nesse reconhecimento que encontramos a nossa própria humanidade.