Há momentos em que, imperativamente não devemos vacilar. Antes pelo contrário, há que reforçar a nossa força interior, sermos isentos de fraqueza, como se tudo fosse simples e reparável, sem nos mostrarmos surpreendidos com alguma coisa menos vulgar, controlando a nossa emotividade, assumindo um comportamento descontraído e, se possível dando outro sentido ao que se apresenta como delicado.
Então, será preferível que, se alguém tiver de surpreender, sejamos nós.
A certa altura, aquele rosto miúdo encharcou-se de lágrimas e a menina chorou de tal modo, tão comovida, que me enchi de cuidados. Apesar de não conseguir, de imediato, saber o que fazer, tentei acalmá-la enquanto soluçava e dei tempo ao tempo, até que começou a falar, desabafando as mágoas que consigo trazia guardadas:
– O meu pai está no hospital.
Foi então que exacerbei o meu lado crente judaico-cristão. Enchi-me de certezas absolutas e depressa a convenci de que ele não tardaria a voltar para casa, novo e salvo.
A nossa conversa ficou por ali, sentindo-a reconfortada.
Depois das férias da Páscoa, no primeiro dia de aulas, pôs o braço no ar e, quando me virei para ela, consentindo-lhe com o olhar, que falasse, perguntou-me
– Ó professora, sabes onde é que o meu pai está?
Fiquei sem saber o que dizer. Sustive as palavras, enquanto me vinha à mente ideias macabras, como a de o paizinho estar no céu.
Olhei-a com esse temor, convencida de que, provavelmente, teria exagerado nas promessas que lhe fizera. Mas, mesmo assim, agarrei-me a todas as minhas forças, pronta para o que desse e viesse, segura de que, fosse o que fosse, conseguiria consolá-la. Haveria sempre uma maneira de contornar o problema, destituindo-o de importância.
Entretanto, acrescentou:
– Olha, professora, o meu pai está no Pinheiro da Cruz (Estabelecimento Prisional).
Senti um alívio e pensei cá com os meus botões:
Com esta é que já me lixaste!
No entanto, depressa me recompus. De forma descontraída e com um ligeiro sorriso, isento de malícia, comentei que, afinal, eram coisas próprias da vida. Talvez o modo como o fiz tivesse sido tomado por entusiasmo, porque num canto da sala, uma voz fez-se ouvir:
– Ó professora, eu também já lá estive a passar férias com o meu pai!
Ao que eu respondi:
– Ah, Sim! Realmente, é uma excelente estância de férias.
É que, aos seis anos, eles são capazes de tudo.