Vivemos tempos de um paradoxo inquietante. Enquanto a democracia liberal se afirma como o regime hegemónico global, os cidadãos parecem mais distantes do que nunca das urnas e das instituições.
Esta era da “pós-política”, marcada por um consenso tecnocrático ao centro, transformou a governação numa mera gestão do existente, onde o eleitor sente que tem “voto, mas não tem voz”. O resultado está à vista: um vácuo de representação que tem sido preenchido por populismos de exclusão e uma polarização destrutiva.
Para compreendermos esta crise, importa olhar para a obra de Chantal Mouffe. A filósofa belga recorda-nos que a democracia moderna é um “paradoxo vivo”, uma tensão constante entre a lógica liberal dos direitos individuais e a lógica democrática da soberania popular.
Ao contrário do que propõem pensadores como John Rawls ou Jürgen Habermas, a saúde de uma sociedade livre não depende da busca por um consenso racional e universal que elimine o conflito. Pelo contrário, tentar neutralizar a discórdia é o caminho mais rápido para a despolitização e para o autoritarismo.
A grande lição de Mouffe é a distinção entre “o político” – a dimensão inerradicável do conflito humano – e “a política” – o conjunto de instituições que tentam organizar a vida comum.
O segredo de uma democracia vibrante não é erradicar o “inimigo”, mas transformá-lo num “adversário legítimo”. No modelo do pluralismo agonístico proposto por Mouffe, o adversário é alguém cujas ideias combatemos com paixão, mas cujo direito de as defender reconhecemos como essencial.
A política exige o que Mouffe chama de “investimento libidinal e afetivo”: os cidadãos não se movem apenas por argumentos lógicos, mas por identificações afetivas e paixões coletivas.
Quando as instituições falham em oferecer canais para que este “choque vibrante” de posições ocorra de forma democrática, as paixões são capturadas por retóricas de ódio, identidades fundamentalistas ou nacionalistas.
Radicalizar a democracia significa, portanto, aceitar que a ordem social é sempre uma “hegemonia provisória” e que a luta pela igualdade e liberdade deve estender-se a todas as relações sociais.
Contra o cinzentismo da gestão tecnocrática, precisamos de recuperar a natureza partidária da política e a construção de projetos alternativos reais. Em última análise, a democracia não é um estado de harmonia final, mas um projeto imperfeito e permanente que se alimenta da própria discórdia. Se queremos salvar o sistema, precisamos de menos consenso e de mais agonismo.
A relevância das teses de Chantal Mouffe para os tempos atuais reside, na sua capacidade de diagnosticar as causas profundas da crise de representação e na proposta de uma alternativa prática à despolitização contemporânea.
A sua proposta aponta para a superação da “pós-política” e do consenso ao centro, constitui um antídoto ao populismo de exclusão dos movimentos populistas de direita e extremismos. O seu modelo do pluralismo agonístico contribui para a transformação da polarização destrutiva.
Mouffe alerta ainda para a tendência atual de substituir o debate público por instâncias judiciais que decidem questões fundamentais com base em moralismos, o que retira o poder de decisão da soberania popular.
A vitalidade da democracia atual depende de manter viva a tensão entre a lógica liberal e a democrática, aceitando que a conflitualidade não é uma ameaça, mas a própria condição de existência de uma sociedade livre.
Referências:
Laclau, E., & Mouffe, C. (1985). Hegemony and socialist strategy: Towards a radical democratic politics. Verso.
Mouffe, C. (1993). The Return of the Political. Verso.
Mouffe, C. (2000). The Democratic Paradox. Verso.
Mouffe, C. (2005). Por um modelo agonístico de democracia. Revista de Sociologia e Política, (25), 11–23.
Mouffe, C. (2005). On the Political. Routledge.
Mouffe, C. (2019). Por um populismo de esquerda, Gradiva.