Marto da Cunha Alves, chefe da divisão da Cultura da Câmara de Alcochete recebe-nos no seu gabinete
Numa manhã de sexta-feira, Marto da Cunha Alves, chefe da divisão da Cultura da Câmara Municipal de Alcochete recebe-nos no seu gabinete, instalado numa das áreas da Biblioteca do município. A conversa depressa se transforma numa viagem pela memória coletiva: através do seu testemunho, é recordada a vida dos salineiros e as transformações da região, pela chegada de novas comunidades e pela extinção de uma atividade que moldou gerações, a salicultura, “aquilo que é a maior área de trabalho que as pessoas de Alcochete tiveram durante muito tempo”.
O entrevistado começa por aprofundar a antiga rotina dos trabalhadores do sal, que era marcada pelo calor exorbitante, os pés descalços e feridos, fruto de um trabalho pesado, mal pago e cuja carga horária era exigente, “Cada indivíduo destes transportava, por dia, perto de duas toneladas de sal à cabeça”, recorda. Recolheu testemunhos de dezenas de salineiros, muitos já falecidos ou no anonimato, “Eu entrevistei vários salineiros que hoje já morreram.
Tenho quase uma centena de horas de entrevistas gravadas”. Entre os inúmeros relatos recolhidos ao longo dos anos, revela alguns dos casos que o marcaram profundamente, sendo o primeiro destes casos o de um rapaz alcochetano que, entre os 14 e os 15 anos, pediu autorização ao pai para trabalhar na tirada do sal, com o intuito de ganhar mais algum dinheiro. Assim o fez, mas não suportou um terço do que era requerido por cada um dos trabalhadores, fazendo apenas a recolha de dois “moios”, sendo que o objetivo diário era de sete.
Como se a frustração do garoto não bastasse, ainda recebeu o golpe que tinha tudo para o derrubar: “Como era pequeno, foi para casa e sentiu-se mal, sentiu-se triste, aborrecido. E quando chegou a casa, como ele dizia: «Em vez da minha mãe ou do meu pai me acarinharem, ainda me maltrataram porque fui envergonhar a família. E eu disse assim.
A partir de amanhã, nem que eu morra com a canastra na cabeça, eu não vou arriar»”. E, segundo Alves, o rapaz quando já graúdo, assumiu que nunca mais voltou, de facto, a vacilar.
Outra memória que o persegue vem de dentro da própria família: o avô da mulher de Marto Alves, que outrora foi um dos salineiros do Samouco, é lembrado por um detalhe de arrepiar, “Tinha buracos que cabiam dedos nas pernas, cabia este dedo assim [faz o movimento com as mãos], feitos pelo sal”.
A nossa fonte relata mais um episódio marcante da região, a Greve do Sal de 1957, em plena ditadura, “Vinte e um salineiros foram presos. Pediam apenas um aumento! O preço do sal subia, mas o salário deles não”. Houve detenções, intimidação e fome; foi um dos momentos mais marcantes da resistência local e, surpreendentemente, continua a ser pouco conhecido.
Hoje em dia, falar da salicultura continua a ser, em muitas famílias de Alcochete, um tabu, “Há pessoas que queriam esquecer”. Muitos abandonaram a profissão e já não se vê quem trabalhe nas salinas, ou marinhas, como se diz na região, “As salinas foram sendo abandonadas. Existiam algumas que foram requalificadas e garantidas em termos de funcionamento por uma fundação, que ainda existe, que é a Fundação João Gonçalo Júnior”, conta-nos.
Apesar deste passado duro, hoje, ao observarmos a vila de pouco mais de 19 mil habitantes, é impossível não pensar nos homens que, durante décadas, carregavam toneladas de sal à cabeça, nos pés feridos, no calor insuportável refletido nos tanques. Recordamos assim as histórias que Marto da Cunha Alves guardou, das vozes que já não podem contar o que viveram, nem aquilo que permaneceu desse esforço, que permitia dar gosto à comida, mas desgosto aos próprios trabalhadores.
Texto publicado por Gonçalo Dias e Maura Quaresma na edição especial da revista ‘Perfil Local’ da ESE/IPS