Em maio de 2025, a SIC trouxe para o espaço público uma realidade que até então permanecia relativamente afastada do debate nacional, com a investigação “Cobiçados e Megalómanos Empreendimentos do Meco”. Este trabalho marcou a agenda política e mobilizou a sociedade civil no concelho de Sesimbra, tornando-se um dos temas incontornáveis da última campanha autárquica.
Estamos a falar de quatro grandes empreendimentos turísticos projetados para a zona do Meco, todos inseridos em território classificado e abrangido pela Rede Natura 2000. Não é uma discussão abstrata. É uma decisão concreta sobre ordenamento do território e modelo de desenvolvimento do concelho.
Os números revelam a dimensão do que está em causa, mais de 3.000 novas camas turísticas, dezenas de edifícios e moradias, numa localidade com pouco mais de 300 habitantes permanentes. A desproporção é evidente. A pressão sobre o território, as infraestruturas e a vivência local será avassaladora.
O impacto inicial da investigação dissipou-se rapidamente. Terminadas as eleições autárquicas, instalou-se um silêncio inquietante. O tema saiu da agenda mediática, mas os projetos continuam a avançar, com menor transparência e menos escrutínio público.
O que está verdadeiramente em causa é o futuro das comunidades locais, do património natural e da economia do Meco. Transformações desta magnitude alteram profundamente o quotidiano de quem ali vive, encarecem a habitação e pressionam serviços e infraestruturas já hoje insuficientes. Ao contrário do que tantas vezes se promete, o crescimento rápido e pouco enraizado raramente beneficia a economia local, pequenos negócios acabam sufocados e substituídos por modelos fechados, controlados por grandes investidores externos.
E é precisamente por isso que importa lembrar o que está em risco.
A Aldeia do Meco não é apenas um ponto de paragem no caminho para a praia ou um ativo imobiliário à espera de valorização. É uma comunidade com identidade própria, população residente e dinâmica económica local, construída gradualmente e sustentada ao longo do tempo.
O modelo que ali se consolidou assenta numa baixa densidade de construção e numa convivência entre o turismo e os residentes. Esse equilíbrio é um ativo do território e deve ser protegido face a transformações de grande escala.
Discutir o futuro do Meco é decidir se o desenvolvimento serve as comunidades que sempre cuidaram deste território ou se as afasta em nome de uma lógica económica alheia à sua identidade. Essa escolha não pode ser feita em segredo.