A Av. de Moçambique é uma artéria que estabelece a divisão entre o Bairro do Liceu e o Bairro das Amoreiras, sentido Oeste/Este.
Irei procurar sequenciar cronologicamente as principais intervenções efectuadas, e enquadrá-las entre si, para tentar justificar a decisão incorrecta que está a ser tomada de estreitamento da via.
Durante muitos anos, a Av. de Moçambique era uma rua com entrada pela Av. Rodrigues Manitto, com várias entradas/ saídas laterais, mas sem entrada/saída na parte oposta.
Era, portanto, uma rua residencial, com muito pouco trânsito.
Com a colocação de uma superfície comercial, o fluxo de trânsito aumentou, embora se mantivesse ainda pouco significativo.
Foi, entretanto, criada a Rotunda do Lidl e a Av. Eng.º Henrique Cabeçadas, com ligação à Variante da Várzea, o que provocou previsivelmente um gradual aumento de trânsito rodoviário, em toda a área adjacente.
A Escola Básica 2,3 de Bocage decidiu transferir (e bem) o seu portão de entrada principal, da Av. de Angola para a Av. Eng.º Henrique Cabeçadas; todavia, tal contribuiu para um acréscimo de circulação automóvel.
De seguida, foi criado o Terminal Rodoviário da Várzea, para circulação de autocarros de serviço urbano, localizado na zona norte do Parque Urbano da Várzea, sendo uma das principais interfaces de transportes da cidade.
A ligação entre a Av. dos Ciprestes e a Av. de Moçambique transformou radicalmente esta última, antes uma estrada meramente residencial, numa artéria de muito movimento.
E é precisamente aqui que as coisas se complicam.
Em vez de se manter a Av. de Moçambique uma avenida larga, com quatro faixas de rodagem (duas em ambos os sentidos), decidiu-se encolher, ficando somente duas.
São tão estreitas que quase parece uma faixa com sentido único.
Com esta decisão, irão criar um problema grave de engarrafamento de trânsito, numa zona onde não existiam quaisquer problemas de circulação.
Existem várias saídas/entradas em estradas laterais que poderiam circular independentemente de quem se movimenta pela via central. Desta forma, irão circular todos pela mesma faixa.
Com o previsível aumento da circulação rodoviária, associado ao estreitamento, iremos seguramente ter filas de trânsito.
A retirada dos semáforos e a colocação da rotunda junto à farmácia, na Av. Rodrigues Manitto, sendo uma boa ideia, penso não ser suficiente para escoar o trânsito.
Alguns conceitos que os nossos políticos e técnicos camarários evidenciam sobre circulação rodoviária urbana, merecem-me as mais sérias reservas.
As más experiências decorrentes do estreitamento das avenidas Alexandre Herculano, Guiné-Bissau e Combatentes da Grande Guerra, deveriam fazer os responsáveis camarários ponderar sobre os erros cometidos que estão à vista de todos e procurar inverter estas situações.
Isto sem falar na Av. Lima de Freitas, exemplo paradigmático de péssimo planeamento urbano, estradas estreitas (uma só faixa para cada lado), lugares de estacionamentos mal planeados, inadequados, de forma longitudinal, em vez de ser “em espinha” logo, com os automóveis estacionados bem dentro da que deveria ser uma faixa de rodagem.
Como se não bastasse, existem prédios sem qualquer harmonia urbanística entre si; alguns prédios cor-de-rosa com varandas, logo seguidos de outros cinzentos, compactos e sem varandas, seguidos por amarelos com varandas e logo a seguir de novo prédios sem varandas.
Um horror.
Lá iremos, noutra crónica exclusivamente dedicada a essa avenida.
O meu saudoso professor de Planeamento Urbano da Universidade Nova de Lisboa, professor Manuel Costa Lobo, dizia de forma recorrente que quem pensa e decide a cidade, deve começar por utilizar duas ferramentas técnicas indispensáveis: o bom senso e o bom gosto.
O estreitamento de avenidas movimentadas, tornando-as pequenas ruas, colide com o primeiro pressuposto, o que irá provocar fortes constrangimentos no fluxo e na fluidez do trânsito, bem como o aumento dos passeios com largas dezenas metros de largura a mais, que não acarretará seguramente um aumento na circulação de peões.
Aumenta o volume de trânsito; diminuem as faixas de rodagens. Um contrassenso.
Isto sem falar nos inúmeros autocarros que regularmente a atravessam, em ambos os sentidos.
Vamos fazer umas contas simples. A Av. de Moçambique irá ter cerca de 6 metros de largura; logo, 3 metros para cada lado. Um autocarro urbano tem entre 2.50 e 2.55 metros de largura.
Um automóvel pode ter até 2,55 com espelhos. Sobra menos de meio metro de espaço de conforto e de segurança, para circulação.
Estamos, basicamente, conversados.