Quem vive ou trabalha no concelho do Seixal e depende do comboio não precisa de relatórios nem de estatísticas complicadas para perceber que algo de errado não está certo. Basta tentar chegar a horas ao trabalho, à escola ou a uma consulta médica. Basta esperar na plataforma, muitas vezes sem informação clara, por um comboio que se atrasa, chega já cheio ou, simplesmente, não aparece.
O transporte ferroviário deveria ser uma solução fiável, confortável e acessível. Na prática, para milhares de utentes do Seixal, tornou-se uma fonte diária de stress, incerteza e perda de tempo. A situação deixou de ser pontual: é estrutural e prolongada.
Atrasos sucessivos, supressões frequentes, sobrelotação e falta de condições mínimas de conforto fazem parte da rotina de quem utiliza os comboios da Fertagus, em infraestruturas cuja (ir)responsabilidade cabe à Infraestruturas de Portugal (IP). Avisos sonoros para desocupar escadas, alertar para constrangimentos da infraestrutura e sinalização e para não obstruir portas tornaram-se a banda sonora das manhãs, num serviço essencial que claramente não responde à procura real. Estarmos forçados a viajar até Coina ou Roma-Areeiro para conseguir entrar num comboio nas horas de ponta é mais uma demonstração da fragilidade da operação ferroviária na Ponte.
É difícil compreender como, numa área metropolitana tão povoada, o serviço ferroviário continua a ser tratado como secundário. Em vez de reforço sério da oferta, temos carruagens a abarrotar; em vez de pontualidade, atrasos “normalizados”; em vez de investimento, explicações vagas. Não se trata de cassete do PCP nem de queixas descabidas: são exigências básicas de quem paga e depende deste serviço, 8500 (eu incluído) dos quais signatários da petição pública a denunciar esta mesma situação.
A Fertagus não pode continuar a escudar-se em limitações operacionais. O contrato de concessão, prolongado até 2031 pelo Governo PSD/CDS de Luís Montenegro, tem servido de presente a um serviço que se deteriora ano após ano, ao ponto de o Presidente da Câmara Municipal do Seixal, Paulo Silva (CDU) – o único autarca da região a verificar esta situação – o ter classificado como “desumano”.
Falo também como passageiro diário. Quem conhece bem a “lata de sardinhas”, sobretudo nas travessias da ponte em hora de ponta e o calor que se sente dentro das carruagens, sabe que temos um desastre à espera de acontecer. 26 anos de inação é demasiado tempo. O Grupo Barraqueiro (dono da Fertagus), que opera com material circulante público, comprou apenas duas carruagens desde 1999, que não estão sequer em circulação…
Não pode continuar a operar na fórmula “lucro privado, investimento público”!
Reveja-se o contrato, arranjem-se soluções com urgência. O que não se permite é que continue tudo na mesma.
Nesta luta, a população poderá contar, como sempre, contar com os autarcas da CDU.