“Isto é a continuação de um ciclo que a Câmara Municipal do Seixal tem feito para a preservação daquele espaço”, disse Paulo Silva
O presidente da Câmara Municipal do Seixal disse esta quinta-feira esperar que a escolha da Fábrica da Pólvora como um dos locais patrimoniais mais ameaçados da Europa possa “abrir portas” para apoios financeiros que ajudem a recuperar aquele espaço.
“Esperemos que seja a abertura de portas para conseguir os meios financeiros necessários para a recuperação daquele espaço que a Câmara Municipal do Seixal só com os seus meios financeiros não vai conseguir recuperar, mas esperemos que com o Europa Nostra consigamos nomeadamente através de mecenas”, disse Paulo Silva.
A Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, um equipamento museológico da Câmara Municipal do Seixal, é um dos sete locais patrimoniais mais ameaçados da Europa escolhidos pela principal rede europeia da sociedade civil dedicada ao património, a Europa Nostra.
Os sete sítios foram escolhidos pela direção da Europa Nostra entre 14 casos pré-selecionados com base na sua importância europeia e no seu valor cultural e social, assim como no grave perigo que enfrentam, tendo o anúncio sido hoje feito num evento ‘online’ que contou com a participação de representantes da Europa Nostra, do Instituto BEI e da Comissão Europeia, além dos proponentes e representantes dos locais incluídos na lista.
Em declarações à agência Lusa o presidente da Câmara Municipal do Seixal explicou que o facto de a Fábrica da Pólvora ter sido selecionada demonstra que a autarquia e os seus técnicos têm feito trabalho na preservação daquele património centenário permitindo que chegasse até aos dias de hoje.
“Isto é a continuação de um ciclo que a Câmara Municipal do Seixal tem feito para a preservação daquele espaço”, disse Paulo Silva.
O autarca sublinhou que a autarquia começou a intervir na fábrica ainda antes do seu encerramento em 2002 para que o património pudesse ser preservado, incluindo a sua memória, ouvindo os trabalhadores que deram os melhores anos da sua vida à elaboração na fábrica.
“Essas são memórias que ficam e que estão no acervo da Câmara Municipal e que nós também queremos que quem venha a visitar a Fábrica da Pólvora, quando ela estiver recuperada, possa também ter acesso a todas essas memórias vivas”, disse.
Graça Filipe, museóloga e historiadora portuguesa e também técnica da autarquia que tem dedicado muito do seu trabalho à Fábrica da Pólvora de Vale de Milhaços, tendo publicado em 2023 o livro “A Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, do século XIX ao século XXI”, explicou que todo o inventário realizado com a descrição das oficinas, das máquinas e dos processos de trabalho foi feito com os trabalhadores.
A especialista considera que a chamada de atenção na lista é um reconhecimento do património.
“Para ter chegado aqui foram precisos muitos anos de investimento da parte da autarquia. Não foi suficiente, mas trouxe-nos até aqui. Continuo a achar que grande parte do caminho vai ser da responsabilidade da autarquia, em todos os sentidos, mas acredito que possamos conjugar com mais parcerias, tendo o reconhecimento da Europa Nostra”, disse.
Com uma história industrial de mais de um século (1896-2001), a Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços é o único sítio em Portugal de reconhecido valor patrimonial onde um sistema original de energia a vapor, conservado ‘in situ’ e em operação, é dado a conhecer.
O sistema de produção de energia mecânica a vapor, constituído por uma caldeira geradora de 1911 e uma máquina a vapor de 1900, é conservado e interpretado em condição operacional mediante o trabalho de um operador com a dupla função de fogueiro e de maquinista.
Este espaço com 13,4 hectares, que é considerado como um dos conjuntos de produção de pólvora negra mais completos e autênticos da Europa, faz parte do Ecomuseu Municipal do Seixal desde 2001 e foi classificado em 2012 como monumento de interesse público mas, apesar disso, segundo a Europa Nostra, enfrenta atualmente uma deterioração estrutural significativa.
Segundo a organização, o colapso dos telhados, as fissuras estruturais das paredes, a infiltração de humidade e a corrosão dos materiais colocam agora em risco tanto os edifícios como as máquinas, em particular na central energética e nas oficinas históricas.
O espaço tem ainda sido alvo de episódios de vandalismo, de danos causados por incêndios e inundações além do crescimento descontrolado da vegetação invasora.
Em comunicado, o Centro Nacional de Cultura explica que estes fatores “colocam este conjunto único — incluindo a sua maquinaria insubstituível — em sério risco, tornando essencial uma ação urgente e coordenada para garantir o seu futuro e o seu potencial como modelo de reutilização pós-industrial sustentável”.
O sítio patrimonial acolhe ainda uma biodiversidade significativa, com 682 espécies inventariadas desde 2020, pelo que a combinação do caráter industrial do sítio com o seu valor ambiental torna-o particularmente distinto no panorama do património pós-industrial da Europa.
As autoridades públicas locais e as instituições culturais, acrescenta a organização, têm desempenhado um papel decisivo na salvaguarda da Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, tendo a iniciativa de preservação sido liderada pela Câmara Municipal do Seixal, de início em cooperação com o antigo proprietário privado, permitindo a transferência do património móvel integrado para a propriedade pública e a sua incorporação no Ecomuseu Municipal do Seixal.
O Ecomuseu também desenvolveu parcerias de investigação nacionais e internacionais e projetos de valorização da biodiversidade, nomeadamente com a Associação Vita Nativa.