1 Outubro 2022, Sábado
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Matilde Alvim: Uma montanhoa “na frente da batalha”

Aos 17 anos inspirou milhares de jovens portugueses a faltar às aulas para exigirem justiça climática. Hoje, vive para o activismo e encara o que faz como uma “necessidade existencial”

 

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“Activista ambiental portuguesa, uma das responsáveis por organizar a greve climática estudantil em Portugal”. É o que uma pesquisa rápida no Google diz acerca de Matilde Alvim. Uma descrição breve e concisa que esconde as horas de trabalho e a dedicação com que a jovem se entrega, há mais de dois anos, à luta pela justiça climática.

No coração da vila de Palmela, Matilde faz-se acompanhar do ar tímido quando se senta à mesa da antiga adega ‘Casa Mãe Rota dos Vinhos’. O som de loiça contra loiça invade o espaço e confere algum dramatismo às palavras escolhidas pela rapariga.

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Está a sorrir, mas fala a sério quando frisa que é necessário “parar de pôr paninhos quentes. É para agir já”. A timidez com que se apresentou desapareceu para dar lugar à jovem que, com apenas 17 anos, se propôs a organizar uma das primeiras greves climáticas estudantis que viria a mobilizar milhares de estudantes em todo o país.

Foi em 2019, ainda aluna de ensino secundário, quando trocou ideias com amigos que partilhavam a mesma “dose de urgência”, que nasceu a vontade de fundar a Greve Climática Estudantil (GCE). Acima de tudo, queriam justiça. “Justiça climática”, sublinha Matilde.

Mobilizados pelas acções climáticas a acontecer por todo o globo e enco- rajados pela atitude da activista sueca Greta Thunberg, criaram um grupo no WhatsApp, ao qual se foi juntando cada vez mais jovens com um propósito em comum: assegurar a vida.

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“Não foi um motivo para faltar às aulas”, explica a activista. “Foi uma necessidade existencial”. Para dar resposta a essa necessidade, no decorrer dos últimos anos, criaram mais dez greves e manifestações, cuja frequência Matilde não tem dúvidas que aumentará no futuro. “Vai ser a maior revolução que a humanidade alguma vez viu”, remata.

“O que é uma licenciatura (…) num planeta morto?”

Cresceu em plena Serra do Louro, Palmela, lugar verde onde encontra “serenidade” para o rebuliço do dia a dia. A moldura verde que lhe cobriu os olhos ao longo da infância foi mais do que suficiente para activar a preocupação com a preservação do ambiente.

Mas, do passado pouco conta, pois é no presente que os seus olhos estão postos. Revela que os pais se “habituaram bem” ao facto de terem uma filha activista e encorajam-na a “lutar pelo que acredita”, mesmo que isso implique abdicar de algumas aulas.

A terminar o 3º ano da Licenciatura em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, a palmelense não imagina outro cenário possível. “A minha prioridade é a sobrevivência. O que é uma Licenciatura ou um grau de Doutoramento num planeta morto? Não valem nada”, afirma.

Contudo, não esconde que a “compreensão” dos professores tem sido um elemento fundamental para concluir os estudos com sucesso. “Já tive professores a participarem em acções da CGE. É muito giro”, deixa escapar.

Do “lado certo da história”

A ideia de que os jovens portugueses estariam a abdicar da sua educação em prol da sustentabilidade correu os meios de comunicação social de todo o país e, em menos de nada, todos queriam conhecer os responsáveis pelo início do movimento.

O nome da jovem de 20 anos começou a correr os quatro cantos de Portugal e, hoje em dia, admite viver para o activismo. Além das acções da CGE, faz questão de estar presente em conferências internacionais de defesa ambiental e escreve regularmente para a rubrica P3 do jornal Público, onde manifesta a urgência de se agir.

Nunca sofreu “de forma física” as complicações que uma vida “na frente da batalha” possa trazer, mas assistiu a episódios que a marcaram. Um deles após um protesto na Rotunda do Aeroporto de Lisboa, em Maio de 2021, em que presenciou a detenção de vários manifestantes.

“Muitas pessoas foram detidas e levadas para a Esquadra dos Olivais. Principalmente mulheres que, assim que chegaram, foram maltratadas e tiveram de se despir. Uma humilhação”, condena.

Também já esteve perto de ser detida, mas o medo não a detém. “Há sempre forças contra”, diz. “Mas quando muitas pessoas se juntam para desobedecer a uma lei injusta, sabemos que estamos do lado certo da história”.

As palavras escasseiam quando reflecte sobre o futuro da vida como a conhece. “Tenho uma perspectiva optimista porque sei que é possível. Está a acontecer. Mas também sou realista e sei que temos de lutar com todas as forças nos próximos anos”.

O futuro é uma incógnita, mas se há algo que tem como certo é o facto de continuar a manifestar-se. “Não há outra opção”, frisa.

 

Matilde Alvim à queima roupa

Idade: 20 anos

Residência: Quinta do Anjo, Palmela

Área: Activismo Ambiental

Experimentou o activismo há três anos e, desde então, não imagina uma vida em que não lute pelo que acredita.

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