1 Outubro 2022, Sábado
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Mafalda de Arrábida Farelo: A cientista azeitonense que estuda o vírus da covid-19 nos EUA

Tem Arrábida no nome e a região de Setúbal no coração. Está empenhada em perceber como a proteína do vírus é capaz de manipular a nossa resposta antiviral

 

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Mafalda de Arrábida Farelo, de 30 anos, é virologista e trabalha como investigadora post-doc na University of California Riverside, nos EUA. Doutorada em interacções vírus-hospedeiro pela Universidade de Surrey, onde estudou como os vírus modulam a célula para ludibriar a resposta antiviral celular, a bióloga azeitonense é apaixonada pela divulgação científica.

Acredita nas vantagens da popularização da ciência e, para tornar o conhecimento acessível a todos, partilha a sua vida como jovem cientista, e a sua pesquisa, nas redes sociais, tanto em inglês como em português.

Nascida a 14 de Dezembro de 1991, viveu em Vila Nogueira de Azeitão, concelho de Azeitão, até aos 24 anos. Actualmente vive em Los Angeles, na Califórnia, mas não esquece a infância “muito feliz” em Azeitão.

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“Toda a minha família é de Azeitão e eu vivia também muito perto de todos os meus colegas de escola. Muitos destes colegas acompanhara-me até ao ensino secundário, com fortes amizades que ainda hoje mantenho. Os Verões eram passados nas praias da Arrábida no barco dos meus pais e em casa de amigas. Em criança os meus avós tinham uma propriedade nos Picheleiros com videiras e lembro-me de todos os anos a família se reunir para vindimar.”, conta a O SETUBALENSE.

Acha que o seu nome, Arrábida, tem a ver com a serra, berço de toda a família. “Cresci a ouvir o meu avô materno dizer que a lenda do pinheiro da velha se tinha passado numa das propriedades da sua família (conhecida como família dos Candinhos, pois todos se chamavam Cândido/Cândida), mas não sei a veracidade desta história”, partilha.

“Setúbal, e mais precisamente Azeitão e a Arrábida, é onde me sinto em casa”, diz Mafalda. “É onde tenho a minha família e os meus amigos de infância, e por isso tenho sempre um pedaço de mim em Setúbal”, acrescenta.

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Fez o ensino secundário na Escola Secundária Sebastião da Gama, na área de ciências, que terminou com média de 14 valores. A licenciatura em Biologia Celular e Molecular, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, acabou com 13 valores.

No mestrado em Ciências Biofarmacêuticas, na Faculdade de Farmácia de Lisboa, obteve 18 valores e, em 2016, mudou-se para Inglaterra para fazer o doutoramento em Virologia na Universidade de Surrey, que concluiu em 2020. Após uma breve experiência como docente no Instituto Politécnico de Setúbal, rumou aos EUA onde hoje é investigadora.

A jovem azeitonense escolheu esta área da ciência por paixão. “Fascina-me perceber como o nosso organismo funciona a nível molecular e como coisas tão pequeninas como bactérias, vírus, ou mutações genéticas são capazes de alterar e manipular o nosso organismo fazendo com que fiquemos doentes. Investigar os mecanismos que nos fazem estar saudáveis ou doentes é bastante desafiador, mas também muito gratificante quando descobrimos algo novo e somos a única pessoa do mundo a saber aquele segredo da natureza.”, afirma.

Nos últimos seis anos, a sua investigação centrou-se nas infecções virais e, neste momento, está a estudar o SARS-CoV-2, o vírus responsável pela COVID-19. “Este vírus é constituído por várias proteínas virais e eu foco-me apenas numa delas. Investigo como esta proteína do vírus é capaz de manipular a nossa resposta antiviral, para que o vírus seja capaz de escapar às nossas defesas e consiga continuar a infectar outras células do nosso organismo e multiplicar-se. Conhecendo estes mecanismos é possível desenvolver medicamentos que impeçam que o vírus escape às nossas defesas e ajudem o nosso organismo a combater a infecção.”, explica.

Diz que a pandemia serviu para relembrar-nos que o aparecimento de uma doença que ponha a humanidade em risco não é ficção científica. Em Novembro de 2020 publicou um artigo no Diário de Notícias, que actualizou no seu site (mafaldafarelo.com) em Maio de 2021, sobre a Doença X, que “vai existir e será uma emergência de saúde pública mundial”. Como não sabemos onde começará e qual será a próxima doença infecciosa a emergir, a melhor defesa é aumentar o investimento no desenvolvimento de vacinas.

Considera que, em Portugal temos “óptima investigação e óptimos investigadores” mas falta investimento. “Os investigadores são na maioria precários, não tendo direito a fundo de desemprego ou a reforma. Vivem de bolsa em bolsa, e é difícil uma pessoa focar-se no seu trabalho e ser criativa se não sabe se terá salário nos meses seguintes.” No seu tipo de investigação, que é “bastante dispendioso, uma vez que as instalações, aparelhos, e reagentes necessários são bastante caros, a falta de financiamento é um entrave para muitos laboratórios”. Com tantas limitações, económicas e burocráticas, Mafalda acha “incrível a boa ciência que se faz” no nosso País. Chegou à conclusão de que em Portugal existem “poucas oportunidades para doutorados”, porque as posições de investigação em universidades “são precárias e as oportunidades na indústria são escassas”. Percebeu, também que a diferença, para o estrangeiro, não é apenas nos salários, mas também de carreira. “Gostava muito de voltar a Portugal, mas só voltarei quando conseguir uma posição e salário que correspondam às minhas capacidades e que me dê oportunidade de crescer profissionalmente”, conclui.

Discurso directo Mafalda avalia a forma como lidámos com a covid-19

Acho que o mundo lidou bem com a pandemia. A esmagadora maioria da população fez um enorme esforço para se proteger a si e aos outros. Ao mesmo tempo a comunidade científica conseguiu aproveitar o conhecimento que já tinha sobre outros coronavirus e vacinas, e o utilizar o novo que foi adquirindo sobre este vírus para produzir vacinas eficazes em tempo recorde. A maior falha foi (e continua a ser) a falta de ajuda a países mais pobres que ainda hoje estão à espera de vacinas para protegerem a sua população.

Outra desilusão foi a onda de desinformação e de cepticismo que se desenvolveu à volta da pandemia e das vacinas. A comunidade científica por vezes falhou uma vez que nem sempre foi clara a comunicar com a população. Por outro lado, a pandemia também revelou haver uma grande falta de literacia científica na população e desconfiança na ciência e nos cientistas. Isto só poderá será colmatado com mais educação científica e com uma aproximação dos cientistas à sociedade em geral.

 

Mafalda Farelo à queima-roupa

Idade: 30 anos

Naturalidade: Azeitão

Residência: Los Angeles, Califórnia (EUA)

Área: Investigação, Virologia

Acredita que uma ciência acessível torna a população mais educada, mais confiante nos cientistas e mais bem preparada para as ameaças

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